4 de abril de 2019

uma história feita para fazer sentido


A dinâmica das coisas.

Nunca mais tinha visto um chiado na tv. E ali estava. Não fazia qualquer ruído, na verdade, mas a profusão de pixels hipnotizante e incômoda dançava na tela. Eu não entendo por que ligo a tv.

Lá fora, escuridão. Há horas a noite venceu o que restara do dia. Me deito na grama para olhar o céu. Poderíamos fazer isso juntos, não? É uma coisa que poderíamos fazer juntos. E senti tua falta, mesmo que tu nunca tenha estado aqui de verdade.

É assim, então? Sentir falta do que nunca existiu?

***

A dinâmica das coisas é essa oscilação de ritmo. Às vezes quero tudo, às vezes não quero nada. Dias de ser do mundo, dias de desaparecer.

As coisas acontecem sem que eu faça parte delas. Mesmo quando estou lá. Porque aquela não sou eu. É uma versão feita para eles, a partir deles.

Quem somos só existe para nós. E quem somos nós só somos quando estamos sós.

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Eu canso fácil das coisas. Das pessoas. Na maioria das vezes não dá tempo de criar um laço. De de repente ser importante pra alguém. Porque eu nunca tenho interesse o suficiente pra ficar. Ou pra tentar. Não que eu não goste das pessoas – eu gosto. Mas eu nunca sou alguém que vai fazer parte da vida delas. É só enquanto as circunstâncias forem essas de proximidade. Senão acaba. Porque eu não consigo fazer essa função da manutenção. A não ser quando é uma daquelas pessoas que sabe-se lá por que eu entendo que, meu deus, preciso manter essa pessoa na minha vida. E em 100% dos casos essa não parece uma vontade recíproca. É ridículo, em suma. Por isso que no fim o melhor é ficar sozinha. Não dá trabalho.

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Só que ninguém entende direito. E eu dificilmente encontro pessoas que compartilhem isso comigo, com quem eu possa falar a respeito. Sobre um monte de coisas. Querer viver numa cabana no meio do mato ou numa casinha de madeira na beira de uma praia vazia. Acho bem difícil estimar quantas pessoas já conheci na vida. Mas conto nos dedos as que dividem ou dividiram comigo pelo menos um desses interesses mais profundos. A sensação é de que todo mundo vive “do outro lado”. Às vezes eu entro nesse outro lado, passo um tempo por lá, bons momentos, mas em algum momento inevitavelmente preciso voltar. O absoluto não pertencimento a um espaço onde a maioria se sente tão bem, o eterno não se encaixar. E a gente passa a vida tentando. Mesmo. Mas ninguém entende a menos que sinta também.

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Qual é a tua, afinal?, eu quero perguntar. Me ajuda porque se tu não disser fica difícil entender. De saber o que fazer. Fico aqui tentando descobrir se vale a pena ou não dizer as coisas que tenho vontade. Se ainda dá pra tentar ou se é melhor desapegar. Sempre tateando. No escuro. Pisando em ovos. Tentando não escorregar. E pra quê? Nem eu sei exatamente. Porque ficou essa coisa, assim. Não quero conversa, mas ei, como vão as coisas. 

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Penso nas constelações que poderíamos mostrar um ao outro. E nas que poderíamos criar. Uma cadente que teria nos levado ao espaço: eu sei, tu sabe. Nosso jogo é de palavras. O mundo é tudo o que temos, mas nunca foi nosso de verdade.

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