20 de junho de 2017

as coisas acontecem ou não acontecem

- Dois copos, por favor.

O garçom voltou, largou os copos e a Serramalte na mesa, riscou a comanda e desapareceu outra vez dentro do bar. Conheço pessoas que poderiam achar uma ofensa, deixar as coisas ali sem dizer nada, não servir o cliente. Já eu gosto especialmente desses, que não dizem nada e deixam as coisas na minha frente para eu fazer com elas o que bem entender. Enchi um copo para mim e fiquei encarando a dupla de vazios do outro lado. Um copo e uma cadeira. À espera.

As coisas acontecem ou não acontecem.

***

Tinha decidido falar há uns quatro ou cinco meses, depois do que fiquei sabendo. Na hora senti o peito apertar, como se de repente uma bomba de sucção tivesse sido acionada, e tudo dentro de mim estava prestes a implodir. Eu sabia que era questão de tempo, mas saber que algo vai acontecer não necessariamente nos prepara para o momento em que de fato acontece. Poderia ter calculado reações possíveis, mas só na hora eu soube. E sabendo a verdade decidi, eu também, falar a verdade.

Tudo é simples, a menos que não seja.

Nada implodiu dentro de mim, minha respiração seguiu o mesmo ritmo de sempre, nenhum impulso venceu a muralha de aparências atrás da qual eu escondo o que sinto. Nenhum rompante, nenhuma explosão. Então era aquela a verdade, a que eu já sabia que seria. O balde de água fria nas fantasias que as verdades costumam ser.

***

Tendo a pensar no tempo como um aliado, mas isso não muda a velocidade com que ele passa. A enxurrada de tudo o que acontece em 24 horas, a cada dia, todos os dias. Ocupações, protestos, famílias desabrigadas pelas enchentes, um assalto a cada esquina, a brutalidade da polícia, mortes, uma nova denúncia de corrupção, os novos astronautas da NASA, performances de drag queens, pessoas promovidas, pessoas desempregadas, os efeitos da crise, o aumento dos preços, leitores e escritores circulando pelas ruas de Paraty, mais um avanço da tecnologia, a neurociência comprovando que não acreditamos em fatos, acreditamos no que queremos acreditar.

Enquanto tudo acontece, acreditamos levar nossas vidas quando na verdade é o tempo que as leva. E cada segundo de silêncio é um palmo a mais na distância que nos separa. Em silêncio, sei o que sinto e no que acredito. Mas o silêncio que embasa e fortalece minhas certezas é o mesmo que me impede de verbalizá-las para qualquer um que não seja eu.

Não é o que você fala, mas como você fala. Mais ainda: se chega a falar de fato.

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Meu telefone tocou de madrugada com um pedido de ajuda. Acordei achando que era o despertador. Demorei a entender que era uma ligação e a conseguir juntar as letras que se formavam na tela, a luz branca agredindo meus olhos recém acordados. Ouvi a voz que saía com dificuldade. Mais pausas do que palavras. Me vesti e fui. Meu rosto e os cabelos ainda com marcas do travesseiro. O que mais eu poderia fazer?

- Não vou dizer nada, porque não tem nada que eu possa dizer nesse momento, mas tô aqui. Vou estar sempre. Conta comigo.

Eu estava lá. E estaria sempre.

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Sabia que teria de esperar porque tinha saído antes do trabalho. Olhei mais uma vez para o copo e a cadeira. Vazios e ausências, como o silêncio, também falam. Paguei a cerveja e pedi ao garçom que não disse nada que entregasse um bilhete.

- Claro, moça, pode deixar. Tem certeza que não vai esperar?

- Certeza eu não tenho, mas vou arriscar.

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Muitas coisas acontecem porque queremos que aconteçam, porque fazemos acontecer, porque decidimos que é hora de acontecer. Muitas outras fogem ao nosso controle: acontecem porque aconteceriam de qualquer forma, porque não cabe a nós querer ou não. Outras simplesmente não acontecem. Essa história é sobre uma delas.

2 de maio de 2017

sempre te vejo de costas

Começa quando ganhamos a liberdade da rua depois que o grupo de 70 pessoas que ocupou a plateia consegue trilhar o caminho de volta até a porta de entrada, agora de saída. Logo em frente, está o muro da escadaria. Alguns grupos se demoram por ali, interrompendo uns os outros em exclamações exaltadas sobre a peça. Outros digitam nos celulares, à espera do carro que os levará adiante.

São muitos destinos possíveis para a mesma noite, para vidas que não as mesmas mas quão semelhantes. Optamos por descer as escadas em direção à rua de baixo, onde caminharíamos até o primeiro lugar em que pudéssemos sentar para comer e beber alguma coisa. Na calçada, ele caminha na minha frente em um trecho estreito.

Os carros passam por nós em alta velocidade. Os faróis me incomodam, e o que vejo são borrões de luz ruidosos demais. Atrás, posso ver a cabeça dele encurvada, cuidando buracos e pedras soltas. Vira o rosto para o lado, não para trás, como se falasse ao asfalto: na próxima quadra conheço um bar aonde podemos ir.

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Está frio do lado de fora. Uma noite qualquer, e decidimos ir até a Cidade Baixa. Ele leva as mãos à boca em forma de concha, sopra e as esfrega uma na outra. Cara, não tava esperando esse frio.

Olho para o rosto dele sob a luz branca do poste. Aquela expressão ao mesmo tempo firme e suave que eu me acostumei a ver, mais de longe do que perto. Vai demorar ainda, digo, o cara tá terminando outra corrida. Ele puxa dois cigarros do bolso e ali ficamos, enganando o frio em uma calçada vazia.

Ele abre a porta e senta ao lado do motorista. No trajeto, o que vejo é o contorno dos cabelos que escapam ao encosto do banco. Não lembro o nome ou a localização do bar, apenas o vulto que traçou o caminho entre as mesas à minha frente.

***

Nunca sei o quanto gastei até entregar a comanda no balcão. O bar está fechando, tem uma fila. O sentimento costuma ser ambíguo: sabemos que está tarde e precisamos ir embora, mas a vontade sempre é de ficar mais. Ir para outro lugar, acompanhar a noite para que a noite não termine. Ou que terminemos com ela.

Ainda estamos em um semi-círculo de conversa quando o grupo anterior passa por nós em direção à porta. Entre um comentário sobre futebol e outro sobre a última temporada de uma série famosa, ouvimos a voz que chama o próximo. Nos endireitamos na fila. Tiro a carteira da bolsa. Olho o celular. Me viro, ele está à minha frente. Um palmo mais alto. Ereto. Em silêncio. De camisa xadrez, azul e preto. Os cabelos cresceram. O sinal do pescoço continua no mesmo lugar.

Sinto o calor do corpo dele a poucos centímetros do meu. Posso respirá-lo. Quero abraçá-lo, mas levanto o braço apenas para ver a hora.

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Sabe aquela sensação quando tu escuta uma música muito boa, ou que gosta muito, e isso te leva para outro lugar? Tu precisa parar, fechar os olhos ou não prestar mais atenção nas coisas ao redor, e só ouvir a música. Senão perde o momento. Sabe essa sensação? Às vezes me sinto assim contigo.

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Termina no saguão em frente à porta da cozinha. Trago uma xícara de café recém passado. Esse cheiro é cruel, ele diz quando nossos caminhos se encontram por acaso. O meio da tarde se encaminha para ser o fim. De noite tem uma festa, semana que vem viajamos. Uma dessas pequenas fendas cotidianas: entre um compromisso e outro, às vezes lembramos que somos pessoas.

De repente, ele vira e começa a andar. Estou parada no saguão, com a xícara de café ainda quente, ainda no meio de uma frase. Longe, ele grita, sem se dar ao trabalho de olhar para trás: vai dar certo. Observo enquanto ele continua caminhando, incapaz de me mexer, de sair do lugar. É nesse momento que percebo.

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Minha vontade é te chamar de canto e avisar baixinho. Tenho muitas coisas pra te dizer, mas preciso que tu queira ouvir. Preciso que seja de frente.

21 de abril de 2017

Giordano, Borges e Bruno

Andou à procura sem jamais encontrar. De Nola ao Acre às esquinas míticas de Buenos Aires. E como poderia? Ao contrário do tempo e do universo, o mundo é finito - mais cheio de limites do que as mentes de cada um deles. Poderia vagar até que lhe não restasse mais tempo, e não encontraria coisa alguma. Porque o que procurava não poderia ser encontrado aqui.

O primeiro foi queimado por acreditar em mundos e eternidades plurais. O segundo escreveu mundos e eternidades. E o terceiro, sobre quem pouco se sabe de fato, talvez esteja atrás desses mundos.

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"Vivemos em um mundo imaginário", ele me diz no Skype. 

Senta ao meu lado todos os dias: dividimos o espaço ocupado por duas mesas e a cumplicidade que nasceu da convivência silenciosa. Nos entendemos com poucas palavras.

- Olha esse site: libraryofbabel.info

Pausa. Vejo enquanto ele digita qualquer coisa. Depois, na minha própria tela, as palavras surgem: Sergio está digitando...

- O que que é isso? O que tá acontecendo aqui? Que loucurA

Na representação virtual da biblioteca criada por Borges, a possibilidade de buscas infinitas. Nas infinitas galerias hexagonais de quatro estantes. Cada estante possui cinco prateleiras e em cada prateleira temos 32 livros. Todas as combinações de letras e palavras possíveis. 

- O que tu acha que aconteceu com ele? - eu pergunto.

- Com ele quem?

- O Borges do Acre.

Ele ri. 

- Não sei. O que tu acha?

- Eu acho que ele tá na Biblioteca de Babel.

Ao nosso redor, as pessoas digitam e conversam. Prestando atenção, é possível ouvir o desritmo dos cliques incessantes de pelo menos dez mouses diferentes. Somos bons em imaginar mundos e possibilidades em meio ao banal. 

- E sabe o que é mais incrível? Tudo o que ele escreveu nos livros e nas paredes já estava na Biblioteca antes mesmo de ele escrever. Tudo o que a gente diz e escreve já está lá antes que a gente diga ou escreva. Todas as palavras já ditas ou escritas por todas as pessoas que já viveram e por aquelas que ainda vivem - todas as palavras que serão ditas ou escritas por todas as pessoas que viverão no futuro: elas também já estão lá. 

- Sua Giordana Bruna!

- Sou mais Borges.

Rimos de novo. 

Ao final do dia, sabemos o que o olhar de despedida significa: aonde chegarão os que pensam igual senão ao ponto onde já estamos?

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A busca na Biblioteca talvez nunca termine. Basta que as palavras sejam possíveis para que existam - e estarão lá. A transformação do universo não cessa, e a certeza de que tudo está escrito faz de nós fantasmas.

A galeria onde Bruno está tem vista ampla: todas as galáxias, planetas e estrelas que pintam o universo, os lugares escondidos do mundo, Nola, o Acre, as esquinas de Buenos Aires, o escritório na Independência onde dois colegas especulam sobre o paradeiro de um acriano, todo o passado e todo o futuro. 

A infinitude do universo e da Biblioteca é a mesma que nos cerca. Como em qualquer oura, não seria possível colocar um fim nessa história. Embora ele agora procure no lugar certo, não nos é dado saber se encontrará ou o que encontrará. A menos que busquemos, também, nós mesmos.

9 de abril de 2017

uma gota de cerveja

Caiu uma gota de cerveja na calça que fez essa mancha espalhafatosa, diferente dos pingos normalmente arredondados, e isso foi o suficiente para me afastar. Para me puxar de volta para dentro: as coisas que estou falando, eu deveria dizer ou guardar, esquecer, meus ombros estão recolhidos, meu cabelo revirado, não sei se estou olhando nos olhos ou só para os copos, para todos ou só para um, se devo beber mais ou não, e essa voz rouca que eu gosto de ouvir mas sei lá o que os outros pensam. Foi só uma gota de cerveja. Foi só mais uma noite. Nada disso tem importância. Mas e aquilo que eu disse? Será que não era melhor não ter dito nada?

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Um copo virou, mas no dia seguinte ninguém lembra. É como se não houvesse acontecido: todos deixam que os detalhes se percam na memória, nas horas, nos dias. A expressão nos rostos deles, a maneira como cada um se movia, uma dança de mãos gesticulantes, tudo o que dissemos, a volta para casa, os contornos da gota de cerveja que pingou na minha calça.

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Acaba no momento em que retiro o cartão da máquina, que começa a emitir uma nota, e enquanto tento encaixar o cartão de volta na carteira digo sem olhar nos olhos da mulher atrás do balcão que "não precisa da minha via". Não é arrogância ou senso de superioridade. Estou bêbada e meu corpo lamenta que, mais uma vez, acabou. Não só acabou: deixou de existir. Daqui em diante, passamos a esquecer.

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E sempre tem a ansiedade. Essa voz que de repente começa a balbuciar, questionando cada movimento meu. Da maneira como cruzo os braços - talvez não devesse cruzá-los - aos movimentos que faço ao passar a mão pelos cabelos ou quando tiro os óculos para em seguida voltar a encaixá-los no rosto. Em absolutamente tudo o que eu digo e como eu digo - que absolutamente nunca é tudo. Ela fala, eu bebo, uma gota pinga sobre a minha coxa, meu olhar vai de um a outro, ao céu, volta, busca expressões, tons de voz, a linguagem corporal, o que os olhos deles também dizem. Todos têm essa postura solta, despojada, segura. Estão confortáveis, à vontade. Não há receio ou temor, tampouco a necessidade constante de controle.

***

Volto. Seguro o copo na mão direita, com o braço apoiado no plástico amarelo da cadeira. Minhas pernas estão esticadas por baixo da mesa. Às vezes também sinto a liberdade: estou aqui e pouco importa o que eu disser. Amanhã, nada terá existido.


A verdade é que me coloco em todas essas situações - quantas forem possíveis - com apenas uma esperança. A esperança que passei a nutrir quatro anos atrás, depois de voltar de férias com uma tatuagem nova, descendo no elevador de um daqueles prédios do Moinhos de Vento. Não tinha nada a ver conosco, aquele lugar. E desde então foram incontáveis cervejas debitadas de uma conta cujo saldo não cresceu muito. 

Mês que vem é possível que nos encontremos de novo. A força que me sobra para tentar e seguir adiante é a mesma que me falta para desistir. Às vezes, desistir é tudo o que precisa ser feito. Isso ou quem sabe prestar mais atenção nas gotas de cerveja que caírem na minha perna, porque aqueles contornos de alguma forma me disseram: chega.

22 de fevereiro de 2017

amores inúteis

- É rádio?
- Não, meu celular tá conectado.
- Pode deixar essa no repeat?

Uma vida inteira pode passar sem que nunca se entre em um táxi cujo motorista escolhe ouvir Morrissey. Fosse mais nova, teria olhado para a cara do sujeito, quem sabe puxado conversa, mas nesse momento só a música interessa. Escoro a cabeça no banco para ver o céu que corre pela janela suja do carro. A cidade costeira que esqueceram de fechar. Todos os dias são domingos.

***

Era uma daquelas noites de ar abafado que clamam uma cerveja, um boteco qualquer onde se possa dar vazão ao que os dias não permitem falar - tudo, para que tudo se desprenda de nós. O marasmo morno no fim de uma sexta-feira de verão, o ar carregado ao mesmo tempo pelo calor e pelas palavras ainda silenciosas que esperavam o momento de se concretizar. Quando nenhuma semana é diferente da anterior, e todos os dias gritam por um escape, qualquer coisa que nos afaste da mesquinharia e da sordidez.

Demorou um pouco. Não é na primeira nem na segunda garrafa que acontece. E quem saberia dizer quando? O momento em que os efeitos do álcool começam a agir sobre a realidade. De repente nossos corpos estão relaxados, soltos nas cadeiras como no sofá de casa, e não importa que o suor na testa seja visível. De repente estamos falando tudo o que teremos dificuldade para lembrar no dia seguinte, uma conversa impossível de ser reconstruída.

É possível que esses momentos existam apenas para serem o que são: um parentese de tempo ao qual não poderemos voltar nem pela memória. Na medida em que as garrafas vazias eram substituídas por outras cheias e geladas, as palavras saíam de nós. O céu continuava estrelado. As outras mesas, espalhadas pela calçada, estavam todas ocupadas, mas não se ouvia o que diziam.

***

Na época, agarrava-me àquelas horas mais do que a qualquer outra coisa. Na tentativa de recuperar e repassar a conversa na cabeça, não deixar que nenhum pedaço se perdesse na enxurrada de informações de um novo dia. A memória é falha, traiçoeira. Não queremos perder - mas quanto mais tentamos reter as palavras mais rápido elas inevitavelmente escapam, atrás de olhos marejados, envoltas em um misto de empolgação e tristeza. Minuto a minuto, passaram, fazendo graça. E então eu paro. De mãos atadas diante do meu desejo de eternidade de um momento feito para acabar.

O olhar que se prendeu um pouco mais do que o normal, cúmplice. O sorriso que foi dado apenas para mim, porque não havia mais ninguém ali. Uma gota de atenção. Apeguei-me a detalhes assim, unilaterais e quase vazios, para embasar a crença de que algo poderia existir. E a sensação de acreditar é inebriante: qualquer coisa é a prova cabal de que não somos loucos.

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Em tudo, o tempo é soberano. Sob quaisquer circunstâncias, age silenciosamente sobre nós. Dia a dia, a corrente de palavras cessou. O percurso entre amar e não saber por que amar é a caminhada inversa ao longo do curso de um rio, abundante no início, até que não exista nada além de um sentimento latente enterrado. Ele está logo ao lado, mas existe e sorri para pessoas que eu jamais poderia ser.

No banco de trás do carro, não sou capaz de lembrar. Falamos sobre amor. Sobre como lidamos com a morte. Viagens que fizemos e um pouco da trajetória de nossas vidas antes de se cruzarem. Surgiram menções ao tempo, ao poder de cura da solidão e do silêncio. Livros que já havíamos lido. 

Talvez o taxista esteja fazendo um caminho mais longo porque entendeu minha necessidade de estar aqui, olhando o céu pela janela, ouvindo essa música, sem saber ao certo quantas horas restam até que o dia amanheça. Ou talvez eu não esteja sentindo o tempo, como as horas que passamos conversando e das quais agora sobram apenas sensações. Um arrepio que percorre meu corpo ao pensar que já estivemos tão perto.