2 de maio de 2017

sempre te vejo de costas

Começa quando ganhamos a liberdade da rua depois que o grupo de 70 pessoas que ocupou a plateia consegue trilhar o caminho de volta até a porta de entrada, agora de saída. Logo em frente, está o muro da escadaria. Alguns grupos se demoram por ali, interrompendo uns os outros em exclamações exaltadas sobre a peça. Outros digitam nos celulares, à espera do carro que os levará adiante.

São muitos destinos possíveis para a mesma noite, para vidas que não as mesmas mas quão semelhantes. Optamos por descer as escadas em direção à rua de baixo, onde caminharíamos até o primeiro lugar em que pudéssemos sentar para comer e beber alguma coisa. Na calçada, ele caminha na minha frente em um trecho estreito.

Os carros passam por nós em alta velocidade. Os faróis me incomodam, e o que vejo são borrões de luz ruidosos demais. Atrás, posso ver a cabeça dele encurvada, cuidando buracos e pedras soltas. Vira o rosto para o lado, não para trás, como se falasse ao asfalto: na próxima quadra conheço um bar aonde podemos ir.

***

Está frio do lado de fora. Uma noite qualquer, e decidimos ir até a Cidade Baixa. Ele leva as mãos à boca em forma de concha, sopra e as esfrega uma na outra. Cara, não tava esperando esse frio.

Olho para o rosto dele sob a luz branca do poste. Aquela expressão ao mesmo tempo firme e suave que eu me acostumei a ver, mais de longe do que perto. Vai demorar ainda, digo, o cara tá terminando outra corrida. Ele puxa dois cigarros do bolso e ali ficamos, enganando o frio em uma calçada vazia.

Ele abre a porta e senta ao lado do motorista. No trajeto, o que vejo é o contorno dos cabelos que escapam ao encosto do banco. Não lembro o nome ou a localização do bar, apenas o vulto que traçou o caminho entre as mesas à minha frente.

***

Nunca sei o quanto gastei até entregar a comanda no balcão. O bar está fechando, tem uma fila. O sentimento costuma ser ambíguo: sabemos que está tarde e precisamos ir embora, mas a vontade sempre é de ficar mais. Ir para outro lugar, acompanhar a noite para que a noite não termine. Ou que terminemos com ela.

Ainda estamos em um semi-círculo de conversa quando o grupo anterior passa por nós em direção à porta. Entre um comentário sobre futebol e outro sobre a última temporada de uma série famosa, ouvimos a voz que chama o próximo. Nos endireitamos na fila. Tiro a carteira da bolsa. Olho o celular. Me viro, ele está à minha frente. Um palmo mais alto. Ereto. Em silêncio. De camisa xadrez, azul e preto. Os cabelos cresceram. O sinal do pescoço continua no mesmo lugar.

Sinto o calor do corpo dele a poucos centímetros do meu. Posso respirá-lo. Quero abraçá-lo, mas levanto o braço apenas para ver a hora.

***

Sabe aquela sensação quando tu escuta uma música muito boa, ou que gosta muito, e isso te leva para outro lugar? Tu precisa parar, fechar os olhos ou não prestar mais atenção nas coisas ao redor, e só ouvir a música. Senão perde o momento. Sabe essa sensação? Às vezes me sinto assim contigo.

***

Termina no saguão em frente à porta da cozinha. Trago uma xícara de café recém passado. Esse cheiro é cruel, ele diz quando nossos caminhos se encontram por acaso. O meio da tarde se encaminha para ser o fim. De noite tem uma festa, semana que vem viajamos. Uma dessas pequenas fendas cotidianas: entre um compromisso e outro, às vezes lembramos que somos pessoas.

De repente, ele vira e começa a andar. Estou parada no saguão, com a xícara de café ainda quente, ainda no meio de uma frase. Longe, ele grita, sem se dar ao trabalho de olhar para trás: vai dar certo. Observo enquanto ele continua caminhando, incapaz de me mexer, de sair do lugar. É nesse momento que percebo.

***

Minha vontade é te chamar de canto e avisar baixinho. Tenho muitas coisas pra te dizer, mas preciso que tu queira ouvir. Preciso que seja de frente.