8 de novembro de 2016

como os pedaços de carne mal passada

Ela tinha vários hábitos que me incomodavam.

Toda vez que usava a pia, fosse para lavar as mãos ou escovar os dentes, espalhava água por toda a extensão da bancada, muitas vezes até no espelho. Como é possível? Eu me perguntava sempre que encontrava o banheiro daquele jeito e pegava a toalha para secar. O que ela faz quando abre a torneira para conseguir respingar água tão longe e em tanta quantidade?

Tinha as roupas também. Ela deixava as roupas no banheiro. Roupas sujas no chão atrás da porta, o pijama ou o que fosse pendurado no aparador das toalhas, a calcinha que lavara durante o banho na porta do box. Porra. No começo eu só avisava, como se acreditasse que ela houvesse esquecido, "tu esqueceu tua calcinha no banheiro". Depois comecei a largar tudo em cima da cama dela, mesmo.

- Pras calcinhas molhadas tem um varal, pra roupa suja tem um cesto e pras outras roupas tu tem um armário. É tão difícil? Com cinco anos eu já sabia disso - disse quando não deu mais pra segurar.

- Tu tem que entender que nem todo mundo é organizado que nem tu - ela respondeu em tom de desdém.

- Não é questão de organização, é educação. Esse banheiro não é só teu. Quando tiver um apartamento e morar sozinha nele, tu faz o que quiser com as tuas roupas.

Aí ela soltou um "ah, vai se fuder" e bateu a porta do quarto.

***

À noite, quando saio do trabalho e trinta minutos depois chego em casa, encontro o silêncio e um apartamento vazio à minha espera. Eu largo as chaves no aparador ao lado da porta, acendo as luzes da cozinha e da sala, escolho um disco, sento para fumar um cigarro. Em seguida troco de roupa, preparo uma janta qualquer e, finalmente, me estendo no sofá para ler. Essas horas de introspecção, em um espaço ocupado apenas por mim, são o que me mantém minimamente funcional para o dia seguinte. Toda a engrenagem do que sou depende disso. E nas noites que esses momentos me escapam, por um motivo ou por outro, a sensação, ao chegar de volta ao escritório na manhã seguinte, é quase a de que nem cheguei a sair.

Em suma, eu não era o tipo de pessoa que dividia apartamento para dividir as contas. Embora fossem altas - e dividi-las estivesse me ajudando a guardar uma parcela significativa do meu salário -, não era isso o que me levaria a abrir as portas de casa para alguém. Era preciso muito mais, porque aquilo de que eu abriria mão não se calculava em dinheiro.

***

Passei no supermercado para comprar algumas cervejas e fui a primeira a chegar. Ele estava esperando na porta com um sorriso faceiro.

- Bem-vinda! - disse quando eu me aproximei, e trocamos beijos no rosto.

Eu já havia estado ali muitas vezes e me senti à vontade para ir até a cozinha, abrir a geladeira e guardar as cervejas.

- Deixa eu te dar um abraço decente agora. Feliz aniversário!

Entreguei o presente e o cartão. Nesse momento, a porta do banheiro se abriu e a esposa dele apareceu com a chapinha na mão. Ainda estava de pés descalços e veio até a sala me cumprimentar - "pra variar estou atrasada, mas fica à vontade, a casa é tua". Quando acabou de ler o cartão, ele me abraçou mais uma vez.

- Querida. Muito obrigado - disse com um novo beijo na minha bochecha.

Ele era uma dessas amizades improváveis que sobrevivem ao fim da faculdade. Nossas fotos de formatura e da festa que dividimos com outros colegas revelam rostos jovens, com os mesmos traços mas em muito diferentes dos que agora se encaravam, em um olhar maduro e cheio de ternura. Quando ele começou a namorar a hoje esposa, eu chegava ao final de um relacionamento. A diferença entre o começo e o fim foi pequena - tivéssemos começado e terminado um pouco antes ou um pouco depois, poderíamos ter acabado juntos. Mas uma das qualidades da vida é a de se resolver a si mesma, de decidir por nós quando não somos capazes de fazê-lo, e foi o que aconteceu.

Eu estava sentada no chão da sala, com uma garrafa de cerveja ao lado, puxando um a um os discos da estante à minha frente para escolher o que ouviríamos em sequência, quando soou o interfone.

- Quer que eu atenda? - gritei.

- Não, pode deixar - ele emergiu da cozinha - deve ser minha irmã.

- Ué, ela tá aqui?

A verdade é que, salvo por fotos que ele às vezes mostrava, eu nunca a tinha visto. Desde que ficamos amigos, ela vivia fora - primeiro em São Paulo, onde fez faculdade, e depois fora do país, na Espanha, para mestrado e doutorado. A "minha irmã" do meu melhor amigo, que eu tentava associar ao rosto não familiar daquelas fotos sempre que ouvia uma história, mas que para mim não passava de uma existência abstrata, totalmente distante da nossa. Foi estranho de repente estar no mesmo ambiente que ela, agora uma presença física.

- Não, não precisa levantar - ela disse ao perceber o esforço que eu fiz para sair do chão.

- Imagina - eu disse - o Emílio me deixa aqui brincando pra ficar entretida e não atrapalhar, mas eu ainda sou educada.

***

Eu não conhecia praticamente nenhuma daquelas pessoas. Eram todos amigos recentes, do trabalho, ou de outros círculos da vida dele que nunca se cruzaram com o nosso. Nenhum outro ex-colega além de mim. E mesmo que houvesse - eu já não falava com mais ninguém. Se por um lado me sentia íntima e próxima por ser a amiga de mais tempo, por outro era como o primeiro intervalo em uma escola nova.

Uma hora ele aparece e acena com a cabeça. A música está alta, as vozes ao meu redor animadas, mas consigo distinguir o movimento dos lábios dele: vem comigo! Sigo-o até a cozinha, onde os primeiros pedaços de picanha mal passada estão à minha espera na forma.

- Especialmente pra ti! - ele diz. - Senão eu sei que não dura.

Aproveito para pegar mais uma cerveja antes de voltar à sala. Por algum tempo tudo corre bem. As conversas fluem naturalmente, e eu encontro o que dizer independente do assunto. Mesmo que sejam comentários banais, quase superficiais, tudo bem, eu estou interagindo e vendo até onde posso ir com essas pessoas. Funciona por um tempo, mas, como os pedaços de carne mal passada, não costuma durar. Duas horas, quem sabe. Então alguma coisa muda e o fluxo que até então corria tranquilo de repente se agita e inverte o sentido abruptamente. Percorro a sala com os olhos e vejo as conversas paralelas em diferentes grupinhos que já não se mesclam. Eu não faço parte de nenhum deles. Jogo o corpo para trás na cadeira e fico bebendo em silêncio, resignada. Tento não fazer muitos movimentos para que ninguém perceba - meu desconforto, o mal estar que se estendeu por toda a superfície da minha pele, a vontade de ir embora e estar sozinha de novo.

É o inferno, mas então uma luz acende à minha direita, para logo em seguida se apagar, acompanhando o movimento da porta do quarto de hóspedes que abriu e fechou. Eu nem havia reparado que as duas não estavam na sala. E a Antônia, irmã dele, senta na cadeira vaga ao meu lado.

- Tu trabalha com o Emílio também?

- Não. Bem que gostaria - bebo um gole da minha cerveja. - Fomos colegas na faculdade.

- Nossa, que legal! - ela sorri. - Pensei que ele não tivesse mantido nenhuma amizade desse tempo.

- Pois é, pra mim ele foi o único que ficou também.

O sotaque dela, originalmente gaúcho, era cheio de sonoridades do espanhol e, aqui e ali, de ritmos paulistanos. Mesmo que não contasse sua história, quando falava entregava um vislumbre de passado e possibilidades - apenas o necessário para imaginar. Os lugares por onde havia passado, as amizades e histórias que vivera, quantos caminhos diferentes não haviam se cruzado com o dela.

Mais algumas cervejas e nossa conversa era alegre, desregrada, e conforme a música dançávamos em nossas cadeiras. Ao nosso redor, as diferentes rodinhas seguiam formadas - éramos as únicas "estranhas". E ela havia voltado para o Brasil para ficar, então? Parece que sim, mas infelizmente não em São Paulo, por enquanto seria por aqui mesmo. E onde estava morando? Não tinha encontrado apartamento ainda, estava na casa dos pais, botando a vida em ordem primeiro.

Pode ter sido efeito da cerveja, da cumplicidade momentânea que se criou entre nós, um impulso de tentar algo diferente - sem pensar, disse que tinha um quarto vago no meu.

***

Ela chegou com as malas uma semana depois. De repente, a solidão absoluta do apartamento, que eu prezava e à qual me entregava com facilidade, cedeu espaço a uma companhia quase constante. Adentramos as duas um novo dia a dia de erros e acertos, de pessoas desconhecidas que passam a viver juntas, acostumando-se uma à outra. Não é fácil dosar a presença de outra de pessoa. De horários, idas ao supermercado, tarefas domésticas, o espaço e a privacidade de cada uma - o equilíbrio se estabelece com a vida em movimento, nunca livre de atritos e desencontros.

Não foi diferente conosco. Mas, uma vez ritmadas em nossa dança diária, passamos a dividir mais do que as contas. De um impulso, construímos nossa amizade. E um mundo novo se abriu diante de mim com a presença dela. Não porque fosse diferente: éramos, na verdade, muito parecidas, e naquele momento a semelhança ganhou um novo significado.

Com o tempo, passou a parecer bastante óbvio que nos tornássemos amigas, afinal. Como eu, ela não encontrava eco para os próprios anseios em uma cidade tão vazia de espírito; como ela, eu precisava de alguém com quem dividir cervejas ao final do expediente. Unimos livros e discos, descobrimos nossas histórias.

***

- Um brinde ao 503!

Ela levantou o copo à frente do rosto, puxando o brinde. Estávamos todos na sala - nós duas, meus amigos, os amigos dela. Se morávamos juntas, era bom que um círculo se acostumasse ao outro. Servimos sanduichinhos e mini-pizzas e pedimos que as pessoas colaborassem levando bebidas.

Deixamos a sala à meia luz, e a música e o álcool que tomava conta dos corpos se encarregaram do resto. Pessoas dançaram, pessoas comeram e deixaram comida cair, pessoas derramaram bebidas, subiram no sofá e na mesa de centro, vomitaram no banheiro, quebraram garrafas. Pessoas dormiram escoradas na parede, sentadas ou onde tivesse parecido uma boa ideia se encostar.

No dia seguinte, saí da cama para me jogar no sofá. Olhava ao redor quando a porta do outro quarto abriu e ela apareceu na sala. A cara amassada pelo travesseiro e manchada de rímel.

- Bom dia! - disse olhando para mim e para a sala ao mesmo tempo, como se estivesse interagindo com as duas, com um sorriso sonolento nos lábios.

Não consegui não achar ela fofa naquela manhã, e em algum lugar tenho certeza de que a sala também respondeu aquele bom dia - "bom dia pra quem? Olha o meu estado". Ela sentou ao meu lado, igualmente cansada demais para qualquer outro movimento, e rimos juntas rememorando os acontecimentos da noite anterior. Uma inauguração e tanto, para o apartamento e para o que seria nossa vida juntas, enquanto durasse.

***

A intenção era que ela ficasse até encontrar um lugar de que gostasse e pudesse pagar. Dois anos já haviam passado, e me entristecia que a atmosfera leve e alegre daquela noite estivesse tão distante. Mais uma vez, não durou.

Pouco tempo depois de bater a porta do quarto, ela ressurgiu na sala com uma mochila pendurada no ombro.

- Tô indo. Volto pra pegar o resto quando der.

Revirei os olhos e suspirei. Tentei explicar que não estava mandando ela embora nem queria que saísse sem ter para onde ir - tudo o que eu queria era que ele se mexesse para que esse lugar passasse a existir. Era essa a ideia desde o começo, afinal. Não adiantou. Ela voltou ao apartamento ainda algumas vezes para buscar coisas que ficavam para trás e, na última delas, deixou a chave em cima da mesa. Nenhum bilhete, nenhuma mensagem no whatsapp.

Com o tempo, retomei e me reacostumei ao ritmo da vida sozinha. Sem divisão de contas ou tarefas, tudo depende de mim mais uma vez. Não que seja ruim - nunca foi - mas há momentos. Aqueles momentos em que a ausência de roupas largadas no banheiro ou de respingos na pia se transforma nos traços de uma presença que bem ou mal me confortava. Nessas horas, sou fatalista: há aqueles de nós fadados a estar sozinhos.

Estou sentada, folheando sem vontade as páginas de um livro qualquer que não me ganhou.

- Filha da puta, eu sinto saudades - mando no whatsapp.

- Eu também - é a resposta. - Bora tomar uma amanhã?

11 de agosto de 2016

olhe para os lados

É tão fácil amar. E nós amamos, num estalar de dedos, mesmo cientes de que o fim da história será o mesmo fim de todas as histórias.

***

Ainda está escuro na rua quando levanto. Faz frio e nuvens cinzas arroxeadas encobrem o céu. O silêncio das primeiras horas da manhã envolve meu corpo e minha mente, por inteiro. Deixo que ele me abrace enquanto escrevo. De todas as janelas de tempo possíveis no intervalo de um dia, essa talvez seja a minha. A cidade ainda dorme e meus pensamentos correm livres, como se a simples presença de pessoas acordadas no entorno os inibisse de alguma forma. Começa a chover. No prédio ao lado, uma janela está acesa, e é possível ouvir alguém tomando banho. Enquanto o café esquenta no fogão, deixo o frio e o vazio atuarem sobre mim. Mesmo que ainda assim eu não saia do lugar: eu preciso disso.

***

- Minha irmã tá saindo pra Porto Alegre agora e eu ia adorar pegar uma carona com ela - as palavras surgem na minha tela.

- Mas assim, tá tudo fora do lugar aqui, eu acabei de chegar. Só tem um colchão e cadeiras de praia.

- Pra mim não é problema, só se for pra ti.

- Não, pra mim também não é. É só que, sei lá, é meio estranho - eu disse, não querendo dizer que na verdade tinha receio de receber um estranho em casa.

- Tu que sabe. Eu só preciso que tu diga que sim pra pegar minhas coisas e ir com ela.

Era o primeiro sábado de março, e eu tinha acabado de chegar no que futuramente acabaria chamando de casa: um apartamento térreo de dois quartos no Bom Fim. Eu, que desde a tenra infância sonhava com uma sacada, me apaixonei por um térreo. O quarto àquela altura resumia-se ao colchão de ar, à televisão de 14 polegas instalada sobre o banquinho de plástico e à mala com minhas roupas no outro canto. Na sala, quatro cadeiras de praia tentavam fazer as vezes de poltronas, e na cozinha a geladeira providencialmente vendida pela antiga moradora - a Marieta que sou até hoje na conta de luz.

Havíamos nos conhecido no máximo duas semanas antes. Um amigo em comum uma vez disse: "Acho que vocês iam se dar bem, quer que eu te apresente?". Não, claro que não, eu mal sei lidar com pessoas que conheço. E nos conhecemos mesmo assim. Destino? Na primeira vez, conversamos virtualmente uma noite inteira, quase 14 horas ininterruptas. Vi o sol nascendo na praia porque parecia uma boa ideia e passei o resto do dia pensando nele - uma pessoa ainda sem rosto por quem eu já estava apaixonada.

E naquela hora, quando ele quis me encontrar no apartamento para o qual eu havia acabado de me mudar, eu tive medo. Talvez de alguma forma eu já soubesse, mesmo sem saber. Pode ser que tenha sido mesmo um instinto - algo em mim que soube de tudo naquele exato instante e tentou avisar, "vai dar merda". Mas tudo o que eu disse foi "tá bom, vem".

***

Além do medo de colocar dentro de casa uma pessoa que nunca tinha visto, eu temia que acabássemos em uma sequência de conversas de elevador e silêncios desconfortáveis. No fim, ambos os receios se provaram infundados, e o momento em que nos beijamos pela primeira vez foi um dos mais doces da minha visita a esse mundo.

Subimos ao terraço do prédio com nossas taças de uma champanhe que sobrara das comemorações do início do ano. O céu estava estrelado, e a cidade que víamos dali era vibrante, envolta em uma atmosfera de felicidade possível apenas nas noites de verão. Ele era agitado - falava rápido, fazia movimentos rápidos -, mas em uma agitação agradável de se presenciar, porque aparecia nos momentos felizes, e eu sentia vontade de acompanhá-lo.

Quando soltamos as taças na mureta, e ele colocou uma mão na minha cintura e a outra no meu rosto e enfim nossos lábios se tocaram, foi como a consumação de algo destinado a acontecer desde que respiramos pela primeira vez. Eu senti a vida fazer sentido, e não queria que aquela certeza acabasse jamais.

***

Passamos o domingo juntos, e na segunda-feira, quando eu deveria aparecer para o primeiro dia na faculdade, a chuva que ganhara a cidade durante a madrugada e a ideia de passar mais tempo com ele somaram-se para me fazer desistir. Era a primeira semana, nada de importante aconteceria naquele dia. Foi também a primeira escolha. Mais tarde eu saberia, aquela decisão daria o tom de todos os meses que seguiriam. Era para ser o começo da minha vida, e eu adiei a minha participação.

Os dias com ele eram dias impossíveis e tinham gosto de aventura. Pouco do que fazíamos juntos fazia parte da minha vida antes - cozinhar de madrugada, ir até a lancheria da avenida em frente tarde da noite, sair na companhia de outros casais, comer panquecas em um restaurante que homenageava os Beatles para comemorar o fato de estarmos juntos, ir até o aeroporto apenas para ver os aviões pousando e decolando. Do mesmo jeito que, ao caminhar à noite, imaginava a vida por trás das janelas acesas, pensava nas pessoas dentro das aeronaves - aonde estariam indo, de onde vinham, quantas vidas paralelas nunca se encontram.

***

- Faz o que tu faria se estivesse sozinha.

Ele me disse certa vez. Estávamos na praia, fugindo da vida em um final de semana qualquer. Era outono, e embora ainda não fizesse frio o vento que soprava à noite fazia com que andássemos encolhidos. Além de talvez algumas centenas de moradores, não havia mais ninguém lá. Tínhamos todo o espaço para nós. Envoltos por silêncio e vazio de todos os lados, fomos rei e rainha de um mundo só nosso.

Se eu estivesse sozinha, provavelmente não estaria ali. Mas a questão era outra: com ele, eu não tinha medo de mostrar o que eu era - de ser exatamente o que eu era.

***

A felicidade daqueles dois dias não veio sem melancolia, e, quando voltamos à cidade, deixamos uma porta aberta. Por esse espaço, inicialmente apenas uma fresta entre o que havíamos sido até então e o que viríamos a ser a partir dali, a vida começou a passar, e mais rápido do que qualquer um de nós pôde perceber já era uma porta escancarada, arrombada, impossível de ser fechada novamente. Ele optou pelo caminho mais fácil enquanto eu fiquei parada, tentando unir pedaços de uma história morta para entender como havia terminado.

Dias de ausência e silêncio transformaram-se em semanas que logo se tornaram meses. Embora eu ainda encontrasse o que dizer, não havia mais nada a ser dito.

***

Vivemos uma vida à parte, em um mundo em que poucas pessoas chegaram de fato a entrar. Não que não tenha valido a pena; ainda que o final seja o mesmo, histórias de amor sempre valem a pena.
Como a própria existência. Não fiz tudo o que gostaria de fazer, e talvez seja tarde demais. Na rua, a manhã é sem rosto - continua cedo, muita gente ainda dorme. Não importa se o resto do dia será em vão, porque o que realmente importa acontece aqui, agora. À minha esquerda, em uma caixinha de madeira argentina, permanece uma lembrança não descartada:

- Olhe para os lados.

25 de julho de 2016

eu quero que ela morra

Primeiro imagino uma ligação, passadas as nove da noite, quando estou lendo no sofá. Oi, vem a voz do outro lado, desculpa ligar a essa hora. Tu pode falar? Imagina, não tem problema, pode falar. Tu tá em casa? Tô. Por quê? Será que eu posso dormir aí essa noite? ... Pausa. Pode, claro. Mas o que que houve? Aconteceu alguma coisa? Sim... Mas eu te conto depois, quando chegar, pode ser? Tá, tranquilo. Só vou juntar umas coisas aqui e já tô indo. Acho que uns 20 minutos, meia hora no máximo. Tá? Tá, te espero. A noite segue com uma conversa sobre uma viagem, uma traição, a quebra de confiança, a desilusão com todos aqueles anos. Depois, em uma linha mais modesta, mas não menos fantasiosa, vem um encontro casual no fim do dia. Olha, tá indo pra casa? Tô. Ah, beleza, vamos juntos. Mas pra dizer a verdade tava mais afim de uma cerveja. Bah, eu também. Foi, então? Foi. O boteco com as mesas na calçada não fica longe, e, cerveja atrás de cerveja, falamos sobre como as coisas não vão bem, sobre como relacionamentos são difíceis. Às vezes eu penso em ficar um tempo fora, sabe? Porque não tenho mais a mesma vontade de estar em casa, de chegar. Um olhar cúmplice, um sorriso de canto, quase imperceptível, e sabemos de tudo.

***

Eu quero que ela morra. Não é um impulso homicida, mas uma vontade muitas vezes genuína. Isso mesmo, senhor, nenhum remorso acompanha. Que ligação tenho com ela para me impedir de querer que aconteça? Então é isso mesmo o que eu quero: que ela morra.

***

Às vezes os dias são de um calor opressor, que escorre pelas paredes e ocupa todo o ar. Existir, nesses dias, é um desafio. Arrastei-me até o trabalho procurando a sombra das árvores que não passavam de um consolo vão, e quando o vento soprava e as rajadas de ar quente atingiam meu rosto eu podia ter certeza de que o inferno era real e eu caminhava por ele. Era um desses dias, e gotas de suor escorriam pelas laterais do meu rosto quando finalmente ocupei minha cadeira.

Naquela época, eu tinha ainda menos certeza. O que eu estava fazendo e por que estava fazendo eram questões obscuras cujas respostas eu evitava. Em vez disso, empurrava meus dias, um a um, na expectativa de apenas sobreviver - ao trabalho, a mais um ano, a uma cidade estanque.

Ao final da tarde, não era mais ameno do que ao meio-dia. Os termômetros digitais marcavam 47°C poucos minutos antes das sete horas. Os ônibus passavam lotados, com rostos e corpos suados que se espremiam uns contra os outros. O semblante daquelas pessoas era vazio de expressão; toda a humanidade que pudesse haver por trás dos olhos encontrava-se resumida ao cansaço e ao calor.

Poderia ser um sofá ou uma geladeira. A caixa ocupava quase toda a extensão do corredor em frente à porta do meu apartamento. Quando comecei a tentar movê-la, a porta do elevador se abriu. Ela devia ter mais ou menos a minha idade e saiu seguida por dois homens empurrando um suporte com mais duas caixas.

- Meu Deus, desculpa ter bloqueado tua entrada - ela exclamou. - A gente vai pôr a caixa pra dentro agora.

Fiquei olhando enquanto ela abria a porta para os dois homens, que entraram e em seguida retornaram com as mãos livres. Saí do caminho para que pudessem mover a caixa, e mais uma vez o elevador se abriu. Eu havia parado em frente à porta e não consegui me afastar o suficiente para evitar a colisão.

- Opa, desculpa - eu disse, ao mesmo tempo liberando a passagem e virando para ver em quem havia esbarrado.

- Não, tudo bem - ele passou com duas malas e parou no corredor ao meu lado. - Tu mora aqui? A gente tá mudando agora, eu que peço desculpa pela confusão aí.

- Amor, trouxe as malas? - ela surgiu na porta e veio ao encontro dele enquanto os dois homens empurravam a caixa da geladeira para dentro.

Estavam casados há cinco anos. Moravam em um apartamento no centro, mas queriam um bairro mais seguro e tranquilo, além de estar mais perto do trabalho dela. Ele era webdesigner, ela arquiteta. Perguntaram sobre a rotina do prédio, tinham se apaixonado pelo apartamento quando visitaram uns meses antes. Pintaram duas paredes e trocaram a pia da cozinha antes da mudança. Estavam muito felizes de finalmente se instalar. Eu só queria entrar em casa.

- Bem-vindos - eu disse, enfim. - Se precisarem de alguma coisa, por favor, fiquem à vontade, é só bater.

***

Eu não costumava interagir muito com as pessoas naquele prédio. Por mais simpatia e amabilidade que eu julgasse despender toda vez que cruzava com alguém nas escadas, no elevador ou no hall, meus vizinhos simplesmente pareciam ser esse tipo de gente - pessoas cinzas, ranzinzas, que não gostam de outras pessoas e para quem coletividade é apenas uma palavra.

Um dos moradores, a quem a aposentadoria havia dado tempo para encontrar problemas, costumava brigar com a síndica toda vez que se encontravam. Os dois discutiam, ela ignorava as reclamações e, como forma de punição, ele cortava a luz - ora do apartamento dela, ora dos ambientes comuns, quando não dos dois. Em uma das tentativas mais ousadas de atingi-la, o mesmo morador ergueu um pequeno monte de terra na entrada do prédio, fincou sobre ele dois pedaços de madeira, rusticamente pregados em formato de cruz, e, apoiado no chão em frente à escultura, um pedaço de papelão exibia os dizeres "aqui jaz um prédio".

Depois de alguns anos presenciando situações dessa natureza, pouca coisa me surpreendia, mas, aos olhos de quem talvez não estivesse acostumado, tudo aquilo seria estranho. Por isso, tive um pouco pena do casal de desavisados, tão feliz com a mudança. Vocês não sabem onde vieram parar, senti vontade de dizer. Eu não esperava que pessoas normais, gente como eu, com quem eu poderia de fato dialogar, morassem naquele lugar.

***

Eu não esperava, acima de tudo, que não só dialogaria com essas pessoas como elas se tornariam minhas amigas. No início, eram encontros casuais quando estávamos chegando ou saindo. Falávamos de amenidades - lugares para conhecer no bairro, o que valia a pena comprar no mercadinho ao lado e o que era melhor deixar para o supermercado, os hábitos peculiares de alguns vizinhos. Aos poucos, essas conversas começaram a se estender, e nos víamos parados no corredor, entre as duas portas, terminando assuntos antes de entrar em casa. Foi questão de tempo até o primeiro "não quer entrar? A gente pode tomar uma cerveja e continuar conversando lá dentro". Eu comecei a frequentar o apartamento deles e eles o meu.

Ela trabalhava em um escritório de arquitetura que prestava consultoria em construções sustentáveis, viajava bastante a trabalho. Ele, no momento, não tinha emprego fixo; trabalhava de casa com diferentes clientes. Dava pra viver. Por enquanto isso bastava e não queria voltar para a rotina de um escritório. Com ela eu tinha em comum o feminismo. Discutíamos sobre o que líamos a respeito, o machismo dos colegas homens com quem trabalhávamos, diferentes situações por que já havíamos passado e o que fazer diante delas. Com ele, eram os vinis. Vinicius, Elis, Chico, Noel, Cartola. Ele me emprestou alguns dos discos dele, eu emprestei alguns dos meus para ele. A vida inteira eu quis ter vizinhos assim e agora eu tinha.

***

Foi ao som de Cartola - ainda é cedo amor - que um dia dividimos uma garrafa de vinho.

Era ele quem costumava fazer as compras, e por três vezes nos encontramos em frente ao elevador, carregados de sacolas na volta do supermercado. "A gente pode combinar de ir juntos na próxima", ele disse. E assim fizemos. Passamos a dividir o peso das sacolas e a comprar em conjunto produtos que valia a pena adquirir em quantidade para aproveitar promoções.

Em um fim de tarde de junho fomos mais uma vez juntos ao supermercado. A chuva cobriu a cidade enquanto percorríamos os corredores em busca de pão, carne, papel higiênico, arroz, produtos de limpeza. Quando a porta automática se abriu à nossa frente, a água que jorrava do céu, embora sem força, não dava sinais de que ofereceria uma trégua. Corremos, mas as poucas quadras que separavam o supermercado do prédio foram suficientes para que chegássemos encharcados, a água escorrendo de nossos cabelos. Essa noite pede um vinho, ele disse. Se ele quisesse, eu tinha um. Era só guardar as compras, trocar a roupa molhada e a gente poderia comer qualquer coisa enquanto bebia. Ele queria? Claro, por que não.

***

Se fosse possível explicar tudo o que acontece, nossa perspectiva e entendimento do mundo seriam outros. É como imaginar como seria a vida se os dias tivessem mais ou menos horas, se pudéssemos nos deslocar no tempo da mesma forma como nos deslocamos no espaço, se fôssemos capazes de recordar todas as memórias de uma existência - o mundo, da forma como o concebemos, não existiria.

Os meses que se seguiram àquela noite foram obscuros. Dias que vieram, um a um, que fizeram mudar a estação e a cara dos dias do lado de fora mas também o que pairava do lado de dentro, entre duas portas do terceiro andar. Não há como dizer que algo aconteceu, tampouco que não. Nunca tive coragem de dizer em voz alta; se mentalizar palavras bastasse para que viessem ao mundo e nele se concretizassem, ela estaria morta.  Contam as lendas que, uma vez proferidas, as palavras são imbuídas de um poder que antes não possuíam. Não ditas, planam no reino das coisas imaginadas, impossibilitadas de agir no mundo; enunciadas, ganham vida e podem enfim tocar a realidade.

Estou sentada em meu sofá, segurando uma taça de vinho e conversando com o silêncio que envolve a sala. Do outro lado do corredor, eles talvez estejam jantando. Uma noite igual a tantas outras do final do inverno, quando na rua o verde retoma seu espaço e o ar aos poucos começa a esquentar, prenunciando a primavera. Uma noite igual a tantas outras, a não ser, talvez, pelas palavras que nela chegaram ao mundo. Basta o impulso - inspirar e deixar que percorram o caminho em direção à vida: eu quero que ela morra.

13 de julho de 2016

ausências

Eu sempre chego antes e já estava no terceiro copo quando ele me cumprimentou e puxou a cadeira. Estávamos em junho, mas mesmo assim eu havia pegado uma mesa na área externa.

- Te importa se eu fumar de vez em quando? - pergunto meio sem jeito, porque imaginei que ele não soubesse.

- Não sabia que tu fumava - (o que foi que eu disse?) - Mas não, claro que não. Não me incomoda.

Ele sentou e fez sinal para o garçom, apontando para o meu copo.

***

Olhei no espelho e mais uma vez para o relógio. Faltavam dez minutos para o horário que marcamos, e eu levaria pelo menos meia hora para chegar, indo a pé. Deveria ser o suficiente, pensei enquanto apagava a luz e girava a chave na porta. Na rua, os postes acesos lembravam a quem ainda não houvesse percebido que já era noite. Poucos meses para frente ou para trás ainda seria possível ver o sol, mas era junho e era noite.

Reconheço alguns dos garçons no bar. Eu já não sabia dizer quando havia estado ali pela última vez. Talvez três anos, talvez quatro. Peço uma cerveja. Os três homens na mesa do outro lado, na faixa dos cinquenta anos, olham para mim. Acendo um cigarro e pego meu celular na bolsa. O importante é que o desconforto não seja aparente. Mesmo que eu tivesse vindo até aqui para beber sozinha - eles não têm nada com isso.

Fazia tempo que não nos falávamos. Principalmente, fazia tempo que não nos falávamos a sós - se é que alguma vez já o havíamos feito. Trabalhamos juntos por dois anos, e durante esse período frequentamos a vida um do outro. Trocamos figurinhas sobre livros e entrevistas. Saímos para beber algumas vezes. Escrevemos uns contos que alguém quis premiar. Mas esse tempo já havia passado há muito, e desde então era difícil dizer. Éramos amigos?

Olho para o relógio mais uma vez. Por que infernos eu invariavelmente acabo na mesma situação? Sozinha, esperando pelos outros.

***

- Tu tá aqui há muito tempo já? Desculpa se eu demorei - diz enquanto se ajeita na cadeira de plástico, tirando o celular do bolso de trás para colocá-lo em cima da mesa.

- Não, cheguei faz pouco - eu largo meu copo. - Que bom te ver, fazia tempo, né? Como é a vida no sudeste?

- Não muito diferente. Melhor, porque tem mais opções de tudo. É mais fácil se distrair e fazer coisas diferentes, ir pra lugares diferentes. Porque né, eles existem. Não é que nem aqui, que tudo se esgota rápido. Mas a essência é a mesma, sabe? A gente leva as coisas junto, não tem como.

- Imagino. Mas eu ainda tenho essa ideia. De que se eu sair daqui as coisas vão ser diferentes. Quero dizer, elas têm que ser. Sabe? É inaceitável que não sejam.

O tempo todo com ele eu tenho certeza de que me acha inocente, como se eu não soubesse o suficiente. Como se não tivesse vivido o suficiente para saber. Não por uma questão de idade, porque nascemos no mesmo ano, com poucos meses entre um parto e outro. Mas ele era uma dessas pessoas - que faziam com que eu me sentisse validada ao concordar com qualquer coisa que eu dissesse.

Ele pergunta sobre o meu trabalho e eu não sei bem o que responder. Suspiro. Olho pra ele em silêncio, meio sorrindo, e levanto os ombros. Meu trabalho bate com o que eu me formei para fazer, nem menos nem mais.

- Não é isso que me incomoda. Nem o que eu faço nem o que eu ganho pra fazer o que eu faço - paro por um instante, tomo um gole da cerveja. - Falta tesão, só isso.

Ele ri. E porque ria pouco era uma risada gostosa de ouvir. Eu nunca sabia ao certo se havia algo errado ou se era só a seriedade de costume. Porque ele não costumava se deixar abalar pelas coisas - salvo mudanças sutis, a expressão mantinha-se a mesma. Por isso, quando ele ria, eu não conseguia evitar e sorrir de volta.

- Acho que tu tá procurando tesão no lugar errado, hein.

- Vou fazer o quê, se as outras fontes são ainda mais escassas.

Resolvemos pedir comida - quibes - e mais cerveja.

- Relaxa, cara. O problema não é teu trabalho. O problema é o que tu faz - ou não faz - quando não tá trabalhando. É o que eu acho, pelo menos. Se tu deixa isso te consumir a ponto de viver pra isso mesmo quando tá fora do escritório ou se tu termina o expediente e vai viver a tua vida e fazer as tuas coisas. Não é?

- É, eu sei.

***

- Vou chamar esse aqui - minha editora anunciou e passou um currículo por cima da divisória da nossa ilha.

Li o nome no início da página. Eu já sabia quem ele era, embora nunca tivesse conhecido pessoalmente. Naquela época, ele voltava de uma temporada trabalhando em um jornal de Buenos Aires, e uma festa de boas vindas estava marcada para a sexta daquela semana.

Procurei algumas das matérias assinadas por ele no site do jornal. Ele escrevia com convicção, pontuando o texto com referências literárias, usando uma linguagem ao mesmo tempo direta e envolvente. A habilidade com as palavras, eu saberia - ou talvez já soubesse -, era a mesma com as pessoas. Na tarde de sexta-feira, saí com minha colega da redação e fomos direto ao bar.

- Vamos chegar antes de todo mundo, mas podemos comer enquanto esperamos. Né? - ela olhou pra mim e sorriu. - Melhor que beber de estômago vazio.

Poucas horas depois, umas trinta pessoas já ocupavam o lugar - sentadas conversando, na rua fumando, andando de um lado para o outro com copos de cerveja nas mãos -, e a dupla de mesas que escolhemos quando chegamos já havia se transformado em um U que ocupava metade do bar. De repente, gritos acalorados vindos da rua indicaram que ele havia chegado. Eu ainda estava preocupada por estar em uma festa de boas vindas de alguém que eu não conhecia. Embora quase todas as pessoas ali fossem amigos em comum, não era o tipo de situação em que eu me sentia confortável.

- Prazer - eu disse quando uma amiga nos apresentou - e desculpa invadir tua festa.

- Imagina! - ele me cumprimentou com beijos, direita e depois esquerda, e um rápido abraço. - Prazer te conhecer também, já fiquei sabendo que vamos trabalhar juntos.

***

Conversamos pouco aquela noite - o suficiente para perceber o que tínhamos em comum. Cinco anos depois, muito havia mudado. Os empregos que nos pagavam, as cidades onde morávamos, o tipo de vida que cada um levava. Mais velhos, mais sérios, unidos por um laço que agora residia e resistia no passado.

- Cara, eu sinto saudade daqui. É o melhor lugar pra beber nessa cidade - ele disse.

- Bah, eu também. Mas nunca mais voltei, até hoje, praticamente só vinha aqui com vocês.

- Mas o pessoal ainda vem, não? Marcam uns aniversários aqui.

- É, mas não eu.

Eu falei e me arrependi na mesma hora. Não que ele não soubesse, mas em voz alta aquilo se tornava palpável. Permanecemos um tempo em silêncio, bebericando nossas cervejas.

- Mas tu acha que é a mesma coisa? - pergunto. - Quero dizer, naquele tempo era diferente. Tava todo mundo aqui ainda, era outra vibe.

- Sim - ele pausa. - Mas a gente tá aqui, não?

Sorrimos. Brindamos. Ele tinha um sorriso malandro, apaixonante. E ao olhar para ele naquele momento me perguntei como era possível que eu nunca houvesse me apaixonado. Não seria difícil - ao contrário, seria muito fácil. Nós gostávamos da companhia um do outro, a conversa corria naturalmente, era confortável estar na presença dele. Do que mais precisaríamos? Sim, seria muito fácil. Mas as coisas acontecem ou não acontecem, simplesmente.

Passava das duas horas quando o garçom anunciou que iriam fechar o bar e perguntou se queríamos uma última cerveja. Nós queríamos.

- É bom demais estar aqui contigo. A gente precisa se ver mais, cara.

Por algum motivo, eu sabia que ele estava sendo sincero. Não era o tipo de coisa que ele diria por educação, "sim, temos que combinar alguma coisa, me liga", "claro, vamos nos ver, sim". Nenhum de nós fazia esse tipo. Terminamos a última cerveja e estávamos alegres e um tanto cambaleantes quando chegamos à calçada. Caminhamos até a minha casa. Nenhum carro passou por nós e não vimos ninguém na rua em todo o trajeto. A cidade estava vazia.

- Essa cidade é um cenário - eu digo.

Ele olha pra mim, coloca o braço sobre meus ombros, aproximando nossos corpos. Andávamos em uma estranha sincronia de passos tortos.

- E nós somos personagens.

***

Depois que ele pega o táxi, acendo um cigarro e sento na sacada. Com os pés apoiados na mureta, olho para um céu sem estrelas. Eu ainda tinha meio ano pela frente, antes de outro e, depois dele, o próximo, em uma sucessão finita cujo fim eu desconhecia. Há pessoas que entram nas nossas vidas para marcá-las profundamente, e eu sentiria falta dele. A luz do poste se esconde em meio aos galhos de uma árvore. O tom negro do céu, que parecia engolir a cidade inteira, logo se descortinaria em um novo dia. O frio e o escuro são apenas ausências.

11 de julho de 2016

as testemunhas

A ideia de que a sucessão de escolhas que fazemos ao longo da vida, das mais simplórias às mais grandiosas, aconteceu apenas para nos levar a um ponto - a partir do qual tudo muda. Não somos mais os mesmos e jamais voltaremos a ser quem éramos no instante anterior. Um momento exato no tempo que divide a vida em dois. Existe tudo o que nos levou até ali e tudo o que nos tornamos depois.

É preciso tempo para reconhecer essas histórias e, mais ainda, para encontrar o segundo que estabeleceu o antes e o depois. Existem memórias, e eu gostaria de contá-las a mim mesma. Num relato preciso como o dia em que tudo mudou. Essas memórias vêm e vão e, como a própria vida, voltam sempre. São fantasmas que rondam, esperando por um momento - um instante no tempo que muda tudo.

No ir dos anos, que memórias teremos do tempo que hoje já não é uma lembrança completa? E, quando chegarmos lá, o que teremos para contar sobre o percurso? A voz que escuto todas as noites. A vida, até então vivida sempre de maneira provisória, torna-se a própria vida.

***

A paisagem corria pela janela. Os morros contornados pela estrada aqui e ali davam lugar a paradas de ônibus, postes, estradinhas que serpenteavam verde adentro, rumo a vilas cujos nomes eu desconhecia. Do outro lado, ao longe, quando as árvores esparsavam, via-se o reflexo da lua sobre o mar - não fosse por isso, não seria possível distinguir céu e água. Na poltrona ao meu lado, ele dormia, cansado que estava de um voo curto transformado em seis horas de espera no estado vizinho por conta do nevoeiro. Estávamos atrasados. E embora meu corpo pedisse eu não conseguia dormir. Olhava incansável pelas janelas dos dois lados, tentando reconhecer qualquer coisa em meio à noite. Uma semana depois, o mesmo trajeto, percorrido de dia, mostraria a exuberância do que meus olhos sabiam que estava logo ao lado, mas não eram capazes de ver.

Separamo-nos logo na chegada. Tracei o caminho da rodoviária ao hotel, peguei minha sacola no bagageiro e fui, despedindo-me com um nos vemos amanhã e um beijo na bochecha. Não havia por que continuar com ele, ou estar nos mesmos lugares, quando há tanto tempo percorríamos caminhos diferentes. Ele morava em outra cidade e tinha a própria editora, enquanto eu passara os últimos dois anos mentindo a mim mesma sobre tudo. Mal nos falávamos, àquela altura. A única coisa que nos unia, ao fim e ao cabo, era a vontade de estar ali.

Depois de largar minhas coisas no quarto, lavar o rosto e trocar de roupa, corri para o centro. Fazia mais frio do que eu esperava, mas a temperatura não era algo em que eu prestaria atenção. A vida vibrava em todos os cantos e as pessoas enchiam as ruas. Nos trechos mais apinhados, era difícil avançar, e tanto os corpos quanto as vozes chocavam-se a todo momento. Decidi não acompanhar a sessão daquela noite. Comprei uma cerveja e procurei por um lugar onde pudesse sentar sozinha - não longe demais a ponto de estar isolada, mas o suficiente para que ninguém se sentisse à vontade para dividir o espaço comigo. Quando encontrei um banco vazio, uma quadra depois da praça, tirei o caderno e a caneta da mochila. Eu não queria interagir, apenas assistir.

Na manhã seguinte, enfim, pude ver onde estava. A praia, o rio, os barcos, o cais, os morros, as pedras, a igreja. Mandei uma mensagem - "Nos vemos hoje antes da sessão?" -, guardei o celular e comecei a caminhar. Era só o que eu faria naquela manhã. Caminhar. Sem mapa e sem nenhum destino em mente a não ser qualquer lugar. Eram quase três horas quando comprei um sanduíche e uma coca e sentei pra comer embaixo de uma árvore. Poucos metros à minha frente, a água azul da baía e as praias e morros do outro lado. Depois de comer, olho o celular: nenhuma resposta dele; dezenas de mensagens e notificações me lembrando da vida para a qual eu deveria voltar. Ao mesmo tempo em que pego um livro, ponho o celular de volta na mochila, com vontade de atirá-lo na água. Como se, uma vez livre das notificações, vibrações e luzinhas piscantes, eu pudesse estar livre também de tudo o que representam. Seria difícil voltar dessa vez.

As portas enfim abrem e as pessoas começam a entrar, uma a uma. Não o vi na fila, tampouco lá dentro. Sempre foi assim, sempre haveria de ser. Se perguntassem, eu não saberia dizer ao certo do que consistia nossa amizade. De reconhecimento mútuo e silencioso. De interesses comuns mas pouco compartilhados. De uma maneira ou de outra, porém, era reconfortante saber que estávamos juntos, mesmo não estando.

O silêncio reina no momento em que o mestre de cerimônia aparece para anunciá-lo. Abro o caderno pra fazer anotações enquanto ele fala, mas escrevo pouco - um lugar fora de tudo, onde você é só você, você deve se sentir livre para dizer coisas estúpidas, há coisas não ditas, e quando você diz se torna real. Durante quase todo o tempo, apenas ouço e observo os trejeitos. O modo como ele fala e a linguagem corporal. Estamos perto demais. Não escrevo nenhuma pergunta, pois quero fazer a minha pessoalmente.

O mundo para nos segundos que ele permanece olhando para mim. Sem dúvida o olhar mais forte a encontrar o meu, de um azul penetrante que pareceu adentrar minha alma e enxergar tudo - todos os meus segredos, todas as minhas falhas, fraquezas e vergonhas. Ele parou e titubeou ao responder. "É uma escolha difícil." Foi rápido. Durou tanto quanto podem durar poucos segundos - uma eternidade comprimida. E no minuto seguinte era como se o anterior houvesse desvanecido. Não é isso a passagem do tempo? Minuto a minuto, dissolvendo o que veio antes em memórias que o tempo há de distorcer ou apagar.

Naquela noite, entre uma cerveja e outra, encontrei-o novamente. Estava sentado nas escadas em frente à igreja e gritou meu nome quando passei. Olhei em volta meio perdida, achando que pudessem estar chamando outra pessoa com o mesmo nome, até que o vi. Estava levemente embriagado, mas mantinha a mesma postura séria, ombros firmes, costas eretas, o olhar de quem não se surpreende ou encanta com qualquer coisa. Sentei ao lado dele, brindamos em silêncio e em silêncio ouvimos todo o burburinho ao nosso redor. As pessoas passavam, algumas cambaleando, todas gritando frases para nós desconexas. Falamos sobre o lugar, sobre o dia que acabara de passar e sobre os que ainda tínhamos pela frente. "É bom estar aqui", eu disse. "Aqui aqui ou aqui?" Eu ri. "Os dois."

***

A fragilidade dos elos que nos conectam ao passado é a mesma dos que nos ligam ao futuro; eles existem baseados em algo que não é palpável. Como o presente, que num instante é futuro e no outro passado, pendemos entre possibilidades. Os lugares por onde passamos ficam para trás e as memórias são engolidas pelo tempo. Nossos rastros, em pouco, não serão mais notados por quem ainda vive. Nossa presença se esvai, dia após dia, a cada hora, e o esforço para evitar esse processo resulta quase sempre vão.

Dois dias depois, pegamos ônibus diferentes. Mais uma vez, eu olhava pela janela, me deixando maravilhar pelas praias e encostas e imaginando se ele estaria dormindo. À medida que o tempo passava, e a origem se tornava mais distante que o destino, eu via a paisagem mudar do lado de fora. A vegetação cedia espaço a construções de aspecto desagradável e o azul do céu gradativamente perdia a força, encoberto pela camada de poluição.

Tudo ficara para trás. A atmosfera daqueles dias, em um lugar onde respirávamos outro ar e falávamos outra língua, foi ofuscada por uma menos atraente e mais conhecida, da vida cotidiana. O dia após dia que tanto me assombra. Por três dias, fomos testemunhas de um outro lugar. E a praia, o rio, os barcos, o cais, os morros, as pedras estão lá e guardam nossos passos, pedaços do que já é nosso passado. Um desvio de rumo e um intervalo no tempo. Voltamos a nossos caminhos, distantes e diferentes, quase indiferentes, mas antes que o tempo nos faça desaparecer haveremos de retornar. E vasculhar as ruínas do que deixamos para trás.

Na sacada de casa, sei que não é para este ponto que gostaria de voltar. Chove, e felizmente ainda tenho tempo ao meu dispor. Uma constante domina meus pensamentos. Nenhuma outra voz será capaz de contar histórias que são minhas. No fim, somos as únicas testemunhas de nossas vidas.

16 de maio de 2016

os nomes

Existe essa teoria de que não nos apaixonamos por pessoas, mas por nomes. Os nomes, que carregam histórias. A imensidão de experiências e escolhas escondidas por um punhado de letras. Quando você os vê ao acaso, estampados numa placa de rua, no texto de uma notícia, num cartão de visita - despertando sentidos que não estão ali, mas em outro lugar.

Aos nomes, passamos a atribuir significados, como se ao proferi-los pudéssemos concretizá-los. As histórias vão ao encontro do passado do mesmo modo que começam, na expectativa do futuro. Sorrateiras. Você não percebe, e elas já existem. Vira os olhos por um instante, e não estão mais ali. Pensa, e nunca existiram.

No começo não tinha nome. Era só ele.

Um cara qualquer que me chamou a atenção pelos cabelos. Depois pelas mãos. Depois pelo café. Depois pela música. Depois pelo que escrevia. E em algum momento qualquer besteira era suficiente: bastava que viesse dele.

Com o nome, vem a intimidade. Brincadeiras com apelidos e sobrenomes que nos permitimos fazer - porque podemos, porque nos conhecemos, porque já temos nome um para um outro. E, com o nome, nossas histórias. Passados que condenam porque feitos de escolhas questionáveis, que envergonham porque vazios, que fazem rir porque passados.

Nossas risadas formaram um par. Era com ele que eu sentia vontade de dividir as histórias do dia e, eventualmente, a própria vida. E porque tínhamos nomes ganhamos sutilezas.

Gosto de ver teus pulsos se movendo.

Macios, como se todo movimento fosse feito para eles. Na caneta ou no violão, nossas mãos passaram a ser nossas. Começamos a dividir novos momentos e novas palavras. Até que ganhamos um novo nome. E então eu soube, porque no fundo sempre sabemos: basta ganhar nome para começar a ter fim. Nascemos, somos batizados e estamos destinados a morrer.

Nós sempre seremos nossos nomes, mas o que serão nossos nomes quando forem apenas nomes? Quando, gravados em uma lápide, não disserem nada a quem ler?

Ele voltou a ser um nome. O conjunto de letras que me paralisa a cada vez que o encontro ao acaso, estampado numa placa de rua, no texto de uma notícia, num cartão de visita - despertando sentidos que não estão ali, mas em outro lugar. Em eterno retorno, a maldição da palavra que se repete e volta para assombrar.

Quando a fantasia acaba, é um nome que reencontra o passado. Nomeamos, e tudo começa a morrer.

16 de abril de 2016

flores murchas

As flores murcharam. Sobre a poeira acumulada dos dias, descansam livros e anotações perdidas. Há correntes de ar que atravessam a sala e sussurram linhas de um poema que não sou capaz de ler. Do rádio, soa a única sequência de músicas possível para mais um mês de maio. Nossos corpos no litoral desabitado. Nossos corpos de outono. Trocando energias que jamais voltariam a pulsar.

Na última vez, juramos sinceridade. Pouco importa se a mentira é para si ou para o outro: está tudo bem. Enganamo-nos quando dizemos a verdade, mentimos sendo sinceros, acreditamos porque é a única possibilidade. Entre mentiras honestas e falsas verdades, jamais vivemos o melhor um do outro.

Acredita que estivemos lá? Que deitamos na areia e dissemos aquelas palavras e fizemos o que fizemos? Passam anos como décadas. Mas são as mesmas canções, em vão repetidas e repetidas de novo, que vêm para lembrar que sempre fomos uma mentira. O que acontece com as palavras, que tantas vezes insistem em soar melhor em outra língua? Você é capaz de me traduzir?

Dias demais vividos à base de nada. Horas que jamais deixaram de ser uma promessa. Nada de bom é capaz de sobreviver aqui, nada de bom poderia nascer de duas pessoas tão detestáveis. Nenhum de nós vale nada, e seria bom que o mundo soubesse. Já não é perspectiva de amor o que nos falta, mas capacidade de amar. É possível apenas existir? Passar os dias sem aspirações, esperando pelo fim. O que eu poderei dizer no momento derradeiro é o mesmo que ainda posso dizer agora. A vida é carregada de ironias, e algumas delas doem como o quê.

Há uma brisa lá fora e algo nela que acompanha meus passos. A Ipiranga passa como um borrão, e o vento sopra pra longe os vestígios de passado. Tanta energia despendida em vão. No fim, quando as flores murcham vem o alívio - chega de lutar contra o impossível. Batalhar por um momento a mais numa vida que não vai durar.

Sim, sou eu do outro lado da rua. E, pela primeira vez, não tenho nada a dizer.

12 de janeiro de 2016

em breve

Demorou para eu perceber que breve significava muitas coisas, menos um espaço curto de tempo.

Esperei por aquele dia como quem espera por uma festa qualquer, e até poucos minutos antes sequer tinha decidido o que vestir. Não tá frio, não tá quente, posso usar uma meia calça e levo um casaco. Lá dentro vai estar cheio, não vou passar frio. Esse vestido, pode ser. É na hora de sair que vem a ansiedade. Faz tempo. O que vamos dizer, depois de tantos anos? Nunca mais vimos a cara um do outro. E se não houver o que dizer? Vamos nos encarar? Desviar o olhar?

Chovia, mas os cabelos nunca importaram. Na medida em que o táxi avançava, olhava para as luzes dos postes - passando, uma após a outra, como todos os dias. Fugazes demais para serem percebidas em detalhe, mas ao mesmo tempo únicas, cada uma nos segundos e no espaço da cidade que lhe compete. Agora não tem volta, e eu não me perdoaria se não fosse adiante. Sempre em frente, ainda que retrocedendo de quando em quando.

Pedi uma cerveja e sentei no balcão. A solidão nos balcões tende a ser mais aceitável e mais fácil de aturar que a de uma mesa. Não recorri ao celular. Em vez disso, olhei para as paredes, onde quadros com imagens e frases misturavam-se a luminárias aqui e ali. As mesas foram ocupadas, e grupos de pessoas muito parecidas umas com as outras somavam à musica o som dos copos, das conversas e das risadas altas demais. Não era possível distinguir nenhuma frase inteira, no máximo palavras - show, amanhã, domingo, eles, essa música, mais uma.

Ele chegou na segunda cerveja. Começou a circular entre as mesas, cumprimentando conhecidos. Não sei se não me viu ou só fingiu não ver. Terminei o último copo e levantei para ir - ao banheiro? Qualquer lugar longe dali. Na rua, a chuva havia diminuído. Mais uma vez, olho para a luz dos postes. Agora em detalhe - como os dias enquanto ainda não passaram por completo. Penso em simplesmente sair andando. Virar a esquina e nunca mais voltar pra essa cidade. Como se fosse possível evitar um encontro inevitável.

Penso em quão ridículo e inexplicável era tudo aquilo. O simples fato de eu estar ali. Quando me viro, ele está ao meu lado. Dessa vez, me vê. Ou não é possível fingir que não. O reconhecimento vem aos pedaços. Demoro a perceber que a voz é a mesma. Assimilo em partes, uma a uma, e não por inteiro. O rosto, em seguida os cabelos e por fim os gestos. Pergunto se está nervoso, falamos brevemente. Não para de se mexer e de olhar para os lados. Me agradece por ter ido. Toda aquela linguagem corporal. Traços que o passado conhecia tão bem e que o presente demorava a entender como algo conhecido.

A mistura de luzes e sons foi única. Memorável. A suavidade das melodias em contraste com a intensidade com que ele tocou e entoou cada uma. Senti lágrimas breves nos olhos. A felicidade de ver feliz. Como algumas sensações, que bastam por si próprias, músicas são difíceis ou impossíveis de se descrever. Porque nunca vêm sós: há sempre algo mais. Uma lembrança, um sentimento, uma maneira de chegar aos ouvidos e ser absorvida pelo corpo que é singular e escapa às palavras.

Ao final, me afastei, deixando que o rodeassem todos os que estavam ali e queriam dar um abraço, dividir congratulações e palavras de carinho. Voltei à rua e fiquei - buscando um significado inexistente, tentando alcançar algo há muito fora de alcance. Despediu-se de mim com aquele nos falamos em breve. Nenhum amor deveria durar até acabar, e talvez os melhores sejam exatamente os que acabam. No mais, é só o silêncio. Em cada música, todos os dias.