27 de novembro de 2013

o pior

Veio perguntar se eu tinha lido um artigo polêmico publicado naquela semana. Sim, eu li. Achei demais, na verdade, o cara tirar com a cara das pessoas desse jeito. Uma galera ficou ofendida, foi divertido.

As conversas vêm e vão. Um encerra, outro puxa assunto, e os assuntos variam ou se repetem, mas o que fica é o ato do diálogo em si. A comunicação interpessoal mediada por computador. É real? Quando há tempo para pensar na reação que, de outro modo, seria instantânea e não digitada, apagada, pensada, reformulada. O que dissemos é verdade? O que dissemos tem significado real?

Dias antes, até horas antes, eu pensava nele. Como foi o show? Terminou o projeto em que vinha trabalhando? Amenidades, curiosidades amenas a respeito da vida de alguém cuja presença em sua própria vida já não existe ou já não é presença.

Em algum momento do filme, o personagem começa uma fala: "I've got a feeling...". Ao meu lado, ele completa: "that tonight's gonna be a good night". Na última fileira do cinema, em uma noite de sexta-feira, nós rimos baixinho. E aquela risada comum talvez significasse tudo o que não sou capaz de expressar. Os sons do corpo, a felicidade que está em um porque está no outro e vice-versa. Dividir.

Caminhando de volta, nossas mãos se tocam com o movimento para-frente-para-trás dos braços e, quase instantaneamente, como se tivéssemos nos dado conta de algo fora de lugar, seguimos o caminho de mãos dadas. Podia ouvir a respiração dele enquanto falava. Gostava de falar. Éramos puro contraste.

Por mais que você tenha escolhido esperar sempre pelo pior, o pior nunca será tão ruim quanto você precisou imaginar que talvez ele seria.

Talvez não haja mais o que dizer sobre nós. O pior. Talvez sejamos só marcas passadas. Ou o melhor. E pensar nisso me toma atônita enquanto tomo vinho - será? É um som insistente como o ponteiro dos segundos do relógio que está ali tiquetaqueando todo o tempo de todos os dias e poucas vezes é percebido. Você diz que nós somos as pedras onde as ondas estouram e eu quero que sejamos as ondas. Você diz que eu sou sensacional e eu não quero ser sensacional, quero ser sua.

Em algum momento, talvez na volta de uma formatura, talvez na noite em que somos obrigados a decidir como pagar as contas, a vida trata de mostrar que a poesia e o lirismo do amor lido não existem. É carne, é sexo, é prazer e é sentimento, mas não é poético. E procurar na vida essa poesia é desperdício.

Gostaria que tivéssemos nos conhecido agora. Agora: assuntos em comum, mais anos, mais rugas, mais saber o que dizer. Ou não: talvez nuca haja um saber o que dizer. Mas agora: livres de quaisquer que fossem as amarras daquele tempo que, paradoxo, era mais livre. Hoje somos outros e poderíamos ser um para o outro.

Ferro e vinho. É fácil se esconder, é fácil não dizer. O difícil é falar. Queria que tivéssemos nos conhecido agora.

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