3 de janeiro de 2019

abaixo da superfície


É um desses lugares que definham com o tempo em vez de florescer. Que decaem em vez de revigorar.

Sempre passamos os verões aqui. E tinha sempre uma galera: os meninos mais velhos do colégio, os nossos próprios colegas, as amigas que ocupavam todos os colchões lá de casa. Além do pessoal que ficava na praia vizinha. E tudo era tão perto e a passagem do ônibus era tão barata.

Hoje não sobrou quase nada. E ninguém mais vai pra lá.

Ou nós simplesmente envelhecemos?

***

Gosto da sensação de praia vazia quando caminho. Conheço as ruas quase mais do que a mim mesma, tantos os passos que já dei por todas elas. Poderia andar de olhos vendados e bastaria contar as quadras para me localizar.

Vou para fugir. 

Das pessoas, do calor, das vozes, de uma rotina ao mesmo tempo veloz e mecânica, quando abrimos os olhos e respiramos apenas pelos momentos que nos lembram que estamos vivos.

Sobretudo dos sentimentos, que aqui sempre gritam mais alto.

***

Estamos sentados na areia, olhando para o mar. O barulho e o movimento hipnotizante das ondas. Vão e voltam. Incessantes. Completas no ir e vir sem fim. Não importa quanto tempo permaneçamos parados diante delas. E ficamos quase o dia todo.

- Esse momento alguma vez passou pela tua cabeça?
- Como assim?
- Que a gente viveria algo assim.
- Não.

Silêncio.

- Passou pela tua?
- Tantas vezes que tu não é capaz de imaginar.

Ele beija meu ombro.

- Acho que sou, sim. Mas nenhuma versão poderia ser melhor do que essa. Essa é real.

Devolvo o beijo.

- Mas tu não fica um pouco puto com isso, de algum jeito? Que a realidade seja melhor do que a imaginação?
- Por que eu ficaria?
- Porque é o que gente faz, ora. Inventar coisas. Criar histórias. Se a vida ganha disso, o que nos sobra?
- Reinventar a própria vida.

Nova pausa.

- Esse momento é um pouco disso, se for pensar. Tu imaginou. Agora a gente tá aqui vivendo. Depois pode virar ficção.
- E agora? De quem foi essa ideia? Minha ou tua?

***

Não há quase ninguém na praia. São os últimos dias de verão, e a maioria das casas já está fechada, com os alarmes acionados e a poeira que reinicia o processo de se acumular sobre as superfícies.

Superfície.
O fundo é solidão, mas a superfície é o inferno.

Nunca me desfaço dessa frase. Os dias seguem seu curso de dias e de repente ela soa. Foi escrita sobre uma tempestade no mar. E é a vida, também.

***

Pela janela do ônibus, um vislumbre do que fica para trás. Uma bicicleta escorada na parede da rodoviária. Folhas secas que rodopiam pela calçada com rajadas repentinas. Nenhuma alma salvo a do atendente da rodoviária, também com os dias contados.

As ruas vazias de um lugar parado no tempo. O verão acabou.

Estávamos abaixo da superfície. Os dias eram nossos, o tempo era nosso, e o que aconteceu lá fora não penetrou o universo que criamos.

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