12 de julho de 2019

o que escrevi sobre nós


Enquanto a água escorre pelo café em pó e atravessa o tecido do filtro para preencher a caneca. Todas as manhãs. O céu mais próximo ou mais distante. De todas as coisas que fazemos sempre, o café é das que não perdem o sentido.

Há três meses eu escrevia sobre nós, patinando nas palavras. Gosto de perceber as mudanças. Da maneira como construo as frases aos pontos que o sol já não alcança aos novos ramos que brotam dos vasos. De qualquer maneira, a vida segue. A qualquer custo, a vida segue. Lenta e inelutavelmente. Sempre segue.

Na vida, quando estamos frente a frente, vem de dentro algo que nos prende. Um qualquer medo de alguma coisa, uma vergonha não se sabe bem que de quê. Na vida, quando estamos frente a frente, as perguntas não são feitas. A vida sozinha não liberta as interrogações que nos acompanham.

Mas aqui é diferente.

Olho para a caneca vazia. É mais relógio do que esse que trago em volta do pulso.

***

- Não sei se a melhor pergunta é o que tu tá olhando ou o que tu tá pensando.
- Pode perguntar as duas, ué.
- E as respostas são diferentes?
- Não sei. Tu acha que quando a gente olha pra uma coisa e pensa em outra na verdade vemos aquilo que pensamos?
- Pode ser. Pode ser o contrário também: às vezes a gente tá pensando em algo e de repente vê alguma coisa e aí começa a pensar nessa outra coisa.
- Ou a gente pensa exatamente naquilo que tá vendo.
- Também. O que a gente pensa determina o que a gente vê, então?
- Talvez. Mas não literalmente.
- Literalmente eu não vejo nada direito, vejo um monte de borrões e imagens não definidas. E aí?
- Talvez tu pense desse jeito também.
- Vou considerar um elogio.

***

Teu rosto não é só um rosto. Muitas pessoas são só um rosto. A maioria delas. Mas o teu é mais do que isso. O tempo todo sei que tu pensa em algo além daquilo que consigo ver quando olho pra ti. Teu rosto é vista.

***

São desvios quase invisíveis, mas o rio corre, e o que escrevi sobre nós há três meses já são palavras mortas. Se as lemos, não somos nós. Quando as lemos, já somos outros. Não é só a passagem do tempo, mas os sedimentos que ele carrega. O que segue e o que vai ficando pelo caminho. O que chega a nós a partir do alheio.

- Venho aqui todos os dias e parece sempre igual, mas sou outra a cada vez que tu me olha.

Não mudo à revelia desses olhos, porque eles me mudam também.

- Cada vez que tu me olha, esse olhar se torna parte da pessoa que me torno.

Quantos olhares já trocamos? Quanto de mim foi contigo e quanto de ti veio comigo?

- Sou feita também dos teus olhares.

***

Se depender do tempo, o que escrevo sobre nós nunca será verdadeiro. Ou será para sempre, congelado em instantes que não voltarão a existir. O tempo leva as palavras. Amanhã mesmo, o que diremos?

Nossos olhos guardam e transmitem as palavras que não ousamos pronunciar.

Quero te dizer tudo com os olhos. Quero ler nos teus olhos o que tu escreve sobre nós.

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