8 de novembro de 2016

como os pedaços de carne mal passada

Ela tinha vários hábitos que me incomodavam.

Toda vez que usava a pia, fosse para lavar as mãos ou escovar os dentes, espalhava água por toda a extensão da bancada, muitas vezes até no espelho. Como é possível? Eu me perguntava sempre que encontrava o banheiro daquele jeito e pegava a toalha para secar. O que ela faz quando abre a torneira para conseguir respingar água tão longe e em tanta quantidade?

Tinha as roupas também. Ela deixava as roupas no banheiro. Roupas sujas no chão atrás da porta, o pijama ou o que fosse pendurado no aparador das toalhas, a calcinha que lavara durante o banho na porta do box. Porra. No começo eu só avisava, como se acreditasse que ela houvesse esquecido, "tu esqueceu tua calcinha no banheiro". Depois comecei a largar tudo em cima da cama dela, mesmo.

- Pras calcinhas molhadas tem um varal, pra roupa suja tem um cesto e pras outras roupas tu tem um armário. É tão difícil? Com cinco anos eu já sabia disso - disse quando não deu mais pra segurar.

- Tu tem que entender que nem todo mundo é organizado que nem tu - ela respondeu em tom de desdém.

- Não é questão de organização, é educação. Esse banheiro não é só teu. Quando tiver um apartamento e morar sozinha nele, tu faz o que quiser com as tuas roupas.

Aí ela soltou um "ah, vai se fuder" e bateu a porta do quarto.

***

À noite, quando saio do trabalho e trinta minutos depois chego em casa, encontro o silêncio e um apartamento vazio à minha espera. Eu largo as chaves no aparador ao lado da porta, acendo as luzes da cozinha e da sala, escolho um disco, sento para fumar um cigarro. Em seguida troco de roupa, preparo uma janta qualquer e, finalmente, me estendo no sofá para ler. Essas horas de introspecção, em um espaço ocupado apenas por mim, são o que me mantém minimamente funcional para o dia seguinte. Toda a engrenagem do que sou depende disso. E nas noites que esses momentos me escapam, por um motivo ou por outro, a sensação, ao chegar de volta ao escritório na manhã seguinte, é quase a de que nem cheguei a sair.

Em suma, eu não era o tipo de pessoa que dividia apartamento para dividir as contas. Embora fossem altas - e dividi-las estivesse me ajudando a guardar uma parcela significativa do meu salário -, não era isso o que me levaria a abrir as portas de casa para alguém. Era preciso muito mais, porque aquilo de que eu abriria mão não se calculava em dinheiro.

***

Passei no supermercado para comprar algumas cervejas e fui a primeira a chegar. Ele estava esperando na porta com um sorriso faceiro.

- Bem-vinda! - disse quando eu me aproximei, e trocamos beijos no rosto.

Eu já havia estado ali muitas vezes e me senti à vontade para ir até a cozinha, abrir a geladeira e guardar as cervejas.

- Deixa eu te dar um abraço decente agora. Feliz aniversário!

Entreguei o presente e o cartão. Nesse momento, a porta do banheiro se abriu e a esposa dele apareceu com a chapinha na mão. Ainda estava de pés descalços e veio até a sala me cumprimentar - "pra variar estou atrasada, mas fica à vontade, a casa é tua". Quando acabou de ler o cartão, ele me abraçou mais uma vez.

- Querida. Muito obrigado - disse com um novo beijo na minha bochecha.

Ele era uma dessas amizades improváveis que sobrevivem ao fim da faculdade. Nossas fotos de formatura e da festa que dividimos com outros colegas revelam rostos jovens, com os mesmos traços mas em muito diferentes dos que agora se encaravam, em um olhar maduro e cheio de ternura. Quando ele começou a namorar a hoje esposa, eu chegava ao final de um relacionamento. A diferença entre o começo e o fim foi pequena - tivéssemos começado e terminado um pouco antes ou um pouco depois, poderíamos ter acabado juntos. Mas uma das qualidades da vida é a de se resolver a si mesma, de decidir por nós quando não somos capazes de fazê-lo, e foi o que aconteceu.

Eu estava sentada no chão da sala, com uma garrafa de cerveja ao lado, puxando um a um os discos da estante à minha frente para escolher o que ouviríamos em sequência, quando soou o interfone.

- Quer que eu atenda? - gritei.

- Não, pode deixar - ele emergiu da cozinha - deve ser minha irmã.

- Ué, ela tá aqui?

A verdade é que, salvo por fotos que ele às vezes mostrava, eu nunca a tinha visto. Desde que ficamos amigos, ela vivia fora - primeiro em São Paulo, onde fez faculdade, e depois fora do país, na Espanha, para mestrado e doutorado. A "minha irmã" do meu melhor amigo, que eu tentava associar ao rosto não familiar daquelas fotos sempre que ouvia uma história, mas que para mim não passava de uma existência abstrata, totalmente distante da nossa. Foi estranho de repente estar no mesmo ambiente que ela, agora uma presença física.

- Não, não precisa levantar - ela disse ao perceber o esforço que eu fiz para sair do chão.

- Imagina - eu disse - o Emílio me deixa aqui brincando pra ficar entretida e não atrapalhar, mas eu ainda sou educada.

***

Eu não conhecia praticamente nenhuma daquelas pessoas. Eram todos amigos recentes, do trabalho, ou de outros círculos da vida dele que nunca se cruzaram com o nosso. Nenhum outro ex-colega além de mim. E mesmo que houvesse - eu já não falava com mais ninguém. Se por um lado me sentia íntima e próxima por ser a amiga de mais tempo, por outro era como o primeiro intervalo em uma escola nova.

Uma hora ele aparece e acena com a cabeça. A música está alta, as vozes ao meu redor animadas, mas consigo distinguir o movimento dos lábios dele: vem comigo! Sigo-o até a cozinha, onde os primeiros pedaços de picanha mal passada estão à minha espera na forma.

- Especialmente pra ti! - ele diz. - Senão eu sei que não dura.

Aproveito para pegar mais uma cerveja antes de voltar à sala. Por algum tempo tudo corre bem. As conversas fluem naturalmente, e eu encontro o que dizer independente do assunto. Mesmo que sejam comentários banais, quase superficiais, tudo bem, eu estou interagindo e vendo até onde posso ir com essas pessoas. Funciona por um tempo, mas, como os pedaços de carne mal passada, não costuma durar. Duas horas, quem sabe. Então alguma coisa muda e o fluxo que até então corria tranquilo de repente se agita e inverte o sentido abruptamente. Percorro a sala com os olhos e vejo as conversas paralelas em diferentes grupinhos que já não se mesclam. Eu não faço parte de nenhum deles. Jogo o corpo para trás na cadeira e fico bebendo em silêncio, resignada. Tento não fazer muitos movimentos para que ninguém perceba - meu desconforto, o mal estar que se estendeu por toda a superfície da minha pele, a vontade de ir embora e estar sozinha de novo.

É o inferno, mas então uma luz acende à minha direita, para logo em seguida se apagar, acompanhando o movimento da porta do quarto de hóspedes que abriu e fechou. Eu nem havia reparado que as duas não estavam na sala. E a Antônia, irmã dele, senta na cadeira vaga ao meu lado.

- Tu trabalha com o Emílio também?

- Não. Bem que gostaria - bebo um gole da minha cerveja. - Fomos colegas na faculdade.

- Nossa, que legal! - ela sorri. - Pensei que ele não tivesse mantido nenhuma amizade desse tempo.

- Pois é, pra mim ele foi o único que ficou também.

O sotaque dela, originalmente gaúcho, era cheio de sonoridades do espanhol e, aqui e ali, de ritmos paulistanos. Mesmo que não contasse sua história, quando falava entregava um vislumbre de passado e possibilidades - apenas o necessário para imaginar. Os lugares por onde havia passado, as amizades e histórias que vivera, quantos caminhos diferentes não haviam se cruzado com o dela.

Mais algumas cervejas e nossa conversa era alegre, desregrada, e conforme a música dançávamos em nossas cadeiras. Ao nosso redor, as diferentes rodinhas seguiam formadas - éramos as únicas "estranhas". E ela havia voltado para o Brasil para ficar, então? Parece que sim, mas infelizmente não em São Paulo, por enquanto seria por aqui mesmo. E onde estava morando? Não tinha encontrado apartamento ainda, estava na casa dos pais, botando a vida em ordem primeiro.

Pode ter sido efeito da cerveja, da cumplicidade momentânea que se criou entre nós, um impulso de tentar algo diferente - sem pensar, disse que tinha um quarto vago no meu.

***

Ela chegou com as malas uma semana depois. De repente, a solidão absoluta do apartamento, que eu prezava e à qual me entregava com facilidade, cedeu espaço a uma companhia quase constante. Adentramos as duas um novo dia a dia de erros e acertos, de pessoas desconhecidas que passam a viver juntas, acostumando-se uma à outra. Não é fácil dosar a presença de outra de pessoa. De horários, idas ao supermercado, tarefas domésticas, o espaço e a privacidade de cada uma - o equilíbrio se estabelece com a vida em movimento, nunca livre de atritos e desencontros.

Não foi diferente conosco. Mas, uma vez ritmadas em nossa dança diária, passamos a dividir mais do que as contas. De um impulso, construímos nossa amizade. E um mundo novo se abriu diante de mim com a presença dela. Não porque fosse diferente: éramos, na verdade, muito parecidas, e naquele momento a semelhança ganhou um novo significado.

Com o tempo, passou a parecer bastante óbvio que nos tornássemos amigas, afinal. Como eu, ela não encontrava eco para os próprios anseios em uma cidade tão vazia de espírito; como ela, eu precisava de alguém com quem dividir cervejas ao final do expediente. Unimos livros e discos, descobrimos nossas histórias.

***

- Um brinde ao 503!

Ela levantou o copo à frente do rosto, puxando o brinde. Estávamos todos na sala - nós duas, meus amigos, os amigos dela. Se morávamos juntas, era bom que um círculo se acostumasse ao outro. Servimos sanduichinhos e mini-pizzas e pedimos que as pessoas colaborassem levando bebidas.

Deixamos a sala à meia luz, e a música e o álcool que tomava conta dos corpos se encarregaram do resto. Pessoas dançaram, pessoas comeram e deixaram comida cair, pessoas derramaram bebidas, subiram no sofá e na mesa de centro, vomitaram no banheiro, quebraram garrafas. Pessoas dormiram escoradas na parede, sentadas ou onde tivesse parecido uma boa ideia se encostar.

No dia seguinte, saí da cama para me jogar no sofá. Olhava ao redor quando a porta do outro quarto abriu e ela apareceu na sala. A cara amassada pelo travesseiro e manchada de rímel.

- Bom dia! - disse olhando para mim e para a sala ao mesmo tempo, como se estivesse interagindo com as duas, com um sorriso sonolento nos lábios.

Não consegui não achar ela fofa naquela manhã, e em algum lugar tenho certeza de que a sala também respondeu aquele bom dia - "bom dia pra quem? Olha o meu estado". Ela sentou ao meu lado, igualmente cansada demais para qualquer outro movimento, e rimos juntas rememorando os acontecimentos da noite anterior. Uma inauguração e tanto, para o apartamento e para o que seria nossa vida juntas, enquanto durasse.

***

A intenção era que ela ficasse até encontrar um lugar de que gostasse e pudesse pagar. Dois anos já haviam passado, e me entristecia que a atmosfera leve e alegre daquela noite estivesse tão distante. Mais uma vez, não durou.

Pouco tempo depois de bater a porta do quarto, ela ressurgiu na sala com uma mochila pendurada no ombro.

- Tô indo. Volto pra pegar o resto quando der.

Revirei os olhos e suspirei. Tentei explicar que não estava mandando ela embora nem queria que saísse sem ter para onde ir - tudo o que eu queria era que ele se mexesse para que esse lugar passasse a existir. Era essa a ideia desde o começo, afinal. Não adiantou. Ela voltou ao apartamento ainda algumas vezes para buscar coisas que ficavam para trás e, na última delas, deixou a chave em cima da mesa. Nenhum bilhete, nenhuma mensagem no whatsapp.

Com o tempo, retomei e me reacostumei ao ritmo da vida sozinha. Sem divisão de contas ou tarefas, tudo depende de mim mais uma vez. Não que seja ruim - nunca foi - mas há momentos. Aqueles momentos em que a ausência de roupas largadas no banheiro ou de respingos na pia se transforma nos traços de uma presença que bem ou mal me confortava. Nessas horas, sou fatalista: há aqueles de nós fadados a estar sozinhos.

Estou sentada, folheando sem vontade as páginas de um livro qualquer que não me ganhou.

- Filha da puta, eu sinto saudades - mando no whatsapp.

- Eu também - é a resposta. - Bora tomar uma amanhã?