22 de fevereiro de 2017

amores inúteis

- É rádio?
- Não, meu celular tá conectado.
- Pode deixar essa no repeat?

Uma vida inteira pode passar sem que nunca se entre em um táxi cujo motorista escolhe ouvir Morrissey. Fosse mais nova, teria olhado para a cara do sujeito, quem sabe puxado conversa, mas nesse momento só a música interessa. Escoro a cabeça no banco para ver o céu que corre pela janela suja do carro. A cidade costeira que esqueceram de fechar. Todos os dias são domingos.

***

Era uma daquelas noites de ar abafado que clamam uma cerveja, um boteco qualquer onde se possa dar vazão ao que os dias não permitem falar - tudo, para que tudo se desprenda de nós. O marasmo morno no fim de uma sexta-feira de verão, o ar carregado ao mesmo tempo pelo calor e pelas palavras ainda silenciosas que esperavam o momento de se concretizar. Quando nenhuma semana é diferente da anterior, e todos os dias gritam por um escape, qualquer coisa que nos afaste da mesquinharia e da sordidez.

Demorou um pouco. Não é na primeira nem na segunda garrafa que acontece. E quem saberia dizer quando? O momento em que os efeitos do álcool começam a agir sobre a realidade. De repente nossos corpos estão relaxados, soltos nas cadeiras como no sofá de casa, e não importa que o suor na testa seja visível. De repente estamos falando tudo o que teremos dificuldade para lembrar no dia seguinte, uma conversa impossível de ser reconstruída.

É possível que esses momentos existam apenas para serem o que são: um parentese de tempo ao qual não poderemos voltar nem pela memória. Na medida em que as garrafas vazias eram substituídas por outras cheias e geladas, as palavras saíam de nós. O céu continuava estrelado. As outras mesas, espalhadas pela calçada, estavam todas ocupadas, mas não se ouvia o que diziam.

***

Na época, agarrava-me àquelas horas mais do que a qualquer outra coisa. Na tentativa de recuperar e repassar a conversa na cabeça, não deixar que nenhum pedaço se perdesse na enxurrada de informações de um novo dia. A memória é falha, traiçoeira. Não queremos perder - mas quanto mais tentamos reter as palavras mais rápido elas inevitavelmente escapam, atrás de olhos marejados, envoltas em um misto de empolgação e tristeza. Minuto a minuto, passaram, fazendo graça. E então eu paro. De mãos atadas diante do meu desejo de eternidade de um momento feito para acabar.

O olhar que se prendeu um pouco mais do que o normal, cúmplice. O sorriso que foi dado apenas para mim, porque não havia mais ninguém ali. Uma gota de atenção. Apeguei-me a detalhes assim, unilaterais e quase vazios, para embasar a crença de que algo poderia existir. E a sensação de acreditar é inebriante: qualquer coisa é a prova cabal de que não somos loucos.

***

Em tudo, o tempo é soberano. Sob quaisquer circunstâncias, age silenciosamente sobre nós. Dia a dia, a corrente de palavras cessou. O percurso entre amar e não saber por que amar é a caminhada inversa ao longo do curso de um rio, abundante no início, até que não exista nada além de um sentimento latente enterrado. Ele está logo ao lado, mas existe e sorri para pessoas que eu jamais poderia ser.

No banco de trás do carro, não sou capaz de lembrar. Falamos sobre amor. Sobre como lidamos com a morte. Viagens que fizemos e um pouco da trajetória de nossas vidas antes de se cruzarem. Surgiram menções ao tempo, ao poder de cura da solidão e do silêncio. Livros que já havíamos lido. 

Talvez o taxista esteja fazendo um caminho mais longo porque entendeu minha necessidade de estar aqui, olhando o céu pela janela, ouvindo essa música, sem saber ao certo quantas horas restam até que o dia amanheça. Ou talvez eu não esteja sentindo o tempo, como as horas que passamos conversando e das quais agora sobram apenas sensações. Um arrepio que percorre meu corpo ao pensar que já estivemos tão perto.