11 de agosto de 2016

olhe para os lados

É tão fácil amar. E nós amamos, num estalar de dedos, mesmo cientes de que o fim da história será o mesmo fim de todas as histórias.

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Ainda está escuro na rua quando levanto. Faz frio e nuvens cinzas arroxeadas encobrem o céu. O silêncio das primeiras horas da manhã envolve meu corpo e minha mente, por inteiro. Deixo que ele me abrace enquanto escrevo. De todas as janelas de tempo possíveis no intervalo de um dia, essa talvez seja a minha. A cidade ainda dorme e meus pensamentos correm livres, como se a simples presença de pessoas acordadas no entorno os inibisse de alguma forma. Começa a chover. No prédio ao lado, uma janela está acesa, e é possível ouvir alguém tomando banho. Enquanto o café esquenta no fogão, deixo o frio e o vazio atuarem sobre mim. Mesmo que ainda assim eu não saia do lugar: eu preciso disso.

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- Minha irmã tá saindo pra Porto Alegre agora e eu ia adorar pegar uma carona com ela - as palavras surgem na minha tela.

- Mas assim, tá tudo fora do lugar aqui, eu acabei de chegar. Só tem um colchão e cadeiras de praia.

- Pra mim não é problema, só se for pra ti.

- Não, pra mim também não é. É só que, sei lá, é meio estranho - eu disse, não querendo dizer que na verdade tinha receio de receber um estranho em casa.

- Tu que sabe. Eu só preciso que tu diga que sim pra pegar minhas coisas e ir com ela.

Era o primeiro sábado de março, e eu tinha acabado de chegar no que futuramente acabaria chamando de casa: um apartamento térreo de dois quartos no Bom Fim. Eu, que desde a tenra infância sonhava com uma sacada, me apaixonei por um térreo. O quarto àquela altura resumia-se ao colchão de ar, à televisão de 14 polegas instalada sobre o banquinho de plástico e à mala com minhas roupas no outro canto. Na sala, quatro cadeiras de praia tentavam fazer as vezes de poltronas, e na cozinha a geladeira providencialmente vendida pela antiga moradora - a Marieta que sou até hoje na conta de luz.

Havíamos nos conhecido no máximo duas semanas antes. Um amigo em comum uma vez disse: "Acho que vocês iam se dar bem, quer que eu te apresente?". Não, claro que não, eu mal sei lidar com pessoas que conheço. E nos conhecemos mesmo assim. Destino? Na primeira vez, conversamos virtualmente uma noite inteira, quase 14 horas ininterruptas. Vi o sol nascendo na praia porque parecia uma boa ideia e passei o resto do dia pensando nele - uma pessoa ainda sem rosto por quem eu já estava apaixonada.

E naquela hora, quando ele quis me encontrar no apartamento para o qual eu havia acabado de me mudar, eu tive medo. Talvez de alguma forma eu já soubesse, mesmo sem saber. Pode ser que tenha sido mesmo um instinto - algo em mim que soube de tudo naquele exato instante e tentou avisar, "vai dar merda". Mas tudo o que eu disse foi "tá bom, vem".

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Além do medo de colocar dentro de casa uma pessoa que nunca tinha visto, eu temia que acabássemos em uma sequência de conversas de elevador e silêncios desconfortáveis. No fim, ambos os receios se provaram infundados, e o momento em que nos beijamos pela primeira vez foi um dos mais doces da minha visita a esse mundo.

Subimos ao terraço do prédio com nossas taças de uma champanhe que sobrara das comemorações do início do ano. O céu estava estrelado, e a cidade que víamos dali era vibrante, envolta em uma atmosfera de felicidade possível apenas nas noites de verão. Ele era agitado - falava rápido, fazia movimentos rápidos -, mas em uma agitação agradável de se presenciar, porque aparecia nos momentos felizes, e eu sentia vontade de acompanhá-lo.

Quando soltamos as taças na mureta, e ele colocou uma mão na minha cintura e a outra no meu rosto e enfim nossos lábios se tocaram, foi como a consumação de algo destinado a acontecer desde que respiramos pela primeira vez. Eu senti a vida fazer sentido, e não queria que aquela certeza acabasse jamais.

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Passamos o domingo juntos, e na segunda-feira, quando eu deveria aparecer para o primeiro dia na faculdade, a chuva que ganhara a cidade durante a madrugada e a ideia de passar mais tempo com ele somaram-se para me fazer desistir. Era a primeira semana, nada de importante aconteceria naquele dia. Foi também a primeira escolha. Mais tarde eu saberia, aquela decisão daria o tom de todos os meses que seguiriam. Era para ser o começo da minha vida, e eu adiei a minha participação.

Os dias com ele eram dias impossíveis e tinham gosto de aventura. Pouco do que fazíamos juntos fazia parte da minha vida antes - cozinhar de madrugada, ir até a lancheria da avenida em frente tarde da noite, sair na companhia de outros casais, comer panquecas em um restaurante que homenageava os Beatles para comemorar o fato de estarmos juntos, ir até o aeroporto apenas para ver os aviões pousando e decolando. Do mesmo jeito que, ao caminhar à noite, imaginava a vida por trás das janelas acesas, pensava nas pessoas dentro das aeronaves - aonde estariam indo, de onde vinham, quantas vidas paralelas nunca se encontram.

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- Faz o que tu faria se estivesse sozinha.

Ele me disse certa vez. Estávamos na praia, fugindo da vida em um final de semana qualquer. Era outono, e embora ainda não fizesse frio o vento que soprava à noite fazia com que andássemos encolhidos. Além de talvez algumas centenas de moradores, não havia mais ninguém lá. Tínhamos todo o espaço para nós. Envoltos por silêncio e vazio de todos os lados, fomos rei e rainha de um mundo só nosso.

Se eu estivesse sozinha, provavelmente não estaria ali. Mas a questão era outra: com ele, eu não tinha medo de mostrar o que eu era - de ser exatamente o que eu era.

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A felicidade daqueles dois dias não veio sem melancolia, e, quando voltamos à cidade, deixamos uma porta aberta. Por esse espaço, inicialmente apenas uma fresta entre o que havíamos sido até então e o que viríamos a ser a partir dali, a vida começou a passar, e mais rápido do que qualquer um de nós pôde perceber já era uma porta escancarada, arrombada, impossível de ser fechada novamente. Ele optou pelo caminho mais fácil enquanto eu fiquei parada, tentando unir pedaços de uma história morta para entender como havia terminado.

Dias de ausência e silêncio transformaram-se em semanas que logo se tornaram meses. Embora eu ainda encontrasse o que dizer, não havia mais nada a ser dito.

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Vivemos uma vida à parte, em um mundo em que poucas pessoas chegaram de fato a entrar. Não que não tenha valido a pena; ainda que o final seja o mesmo, histórias de amor sempre valem a pena.
Como a própria existência. Não fiz tudo o que gostaria de fazer, e talvez seja tarde demais. Na rua, a manhã é sem rosto - continua cedo, muita gente ainda dorme. Não importa se o resto do dia será em vão, porque o que realmente importa acontece aqui, agora. À minha esquerda, em uma caixinha de madeira argentina, permanece uma lembrança não descartada:

- Olhe para os lados.