25 de julho de 2016

eu quero que ela morra

Primeiro imagino uma ligação, passadas as nove da noite, quando estou lendo no sofá. Oi, vem a voz do outro lado, desculpa ligar a essa hora. Tu pode falar? Imagina, não tem problema, pode falar. Tu tá em casa? Tô. Por quê? Será que eu posso dormir aí essa noite? ... Pausa. Pode, claro. Mas o que que houve? Aconteceu alguma coisa? Sim... Mas eu te conto depois, quando chegar, pode ser? Tá, tranquilo. Só vou juntar umas coisas aqui e já tô indo. Acho que uns 20 minutos, meia hora no máximo. Tá? Tá, te espero. A noite segue com uma conversa sobre uma viagem, uma traição, a quebra de confiança, a desilusão com todos aqueles anos. Depois, em uma linha mais modesta, mas não menos fantasiosa, vem um encontro casual no fim do dia. Olha, tá indo pra casa? Tô. Ah, beleza, vamos juntos. Mas pra dizer a verdade tava mais afim de uma cerveja. Bah, eu também. Foi, então? Foi. O boteco com as mesas na calçada não fica longe, e, cerveja atrás de cerveja, falamos sobre como as coisas não vão bem, sobre como relacionamentos são difíceis. Às vezes eu penso em ficar um tempo fora, sabe? Porque não tenho mais a mesma vontade de estar em casa, de chegar. Um olhar cúmplice, um sorriso de canto, quase imperceptível, e sabemos de tudo.

***

Eu quero que ela morra. Não é um impulso homicida, mas uma vontade muitas vezes genuína. Isso mesmo, senhor, nenhum remorso acompanha. Que ligação tenho com ela para me impedir de querer que aconteça? Então é isso mesmo o que eu quero: que ela morra.

***

Às vezes os dias são de um calor opressor, que escorre pelas paredes e ocupa todo o ar. Existir, nesses dias, é um desafio. Arrastei-me até o trabalho procurando a sombra das árvores que não passavam de um consolo vão, e quando o vento soprava e as rajadas de ar quente atingiam meu rosto eu podia ter certeza de que o inferno era real e eu caminhava por ele. Era um desses dias, e gotas de suor escorriam pelas laterais do meu rosto quando finalmente ocupei minha cadeira.

Naquela época, eu tinha ainda menos certeza. O que eu estava fazendo e por que estava fazendo eram questões obscuras cujas respostas eu evitava. Em vez disso, empurrava meus dias, um a um, na expectativa de apenas sobreviver - ao trabalho, a mais um ano, a uma cidade estanque.

Ao final da tarde, não era mais ameno do que ao meio-dia. Os termômetros digitais marcavam 47°C poucos minutos antes das sete horas. Os ônibus passavam lotados, com rostos e corpos suados que se espremiam uns contra os outros. O semblante daquelas pessoas era vazio de expressão; toda a humanidade que pudesse haver por trás dos olhos encontrava-se resumida ao cansaço e ao calor.

Poderia ser um sofá ou uma geladeira. A caixa ocupava quase toda a extensão do corredor em frente à porta do meu apartamento. Quando comecei a tentar movê-la, a porta do elevador se abriu. Ela devia ter mais ou menos a minha idade e saiu seguida por dois homens empurrando um suporte com mais duas caixas.

- Meu Deus, desculpa ter bloqueado tua entrada - ela exclamou. - A gente vai pôr a caixa pra dentro agora.

Fiquei olhando enquanto ela abria a porta para os dois homens, que entraram e em seguida retornaram com as mãos livres. Saí do caminho para que pudessem mover a caixa, e mais uma vez o elevador se abriu. Eu havia parado em frente à porta e não consegui me afastar o suficiente para evitar a colisão.

- Opa, desculpa - eu disse, ao mesmo tempo liberando a passagem e virando para ver em quem havia esbarrado.

- Não, tudo bem - ele passou com duas malas e parou no corredor ao meu lado. - Tu mora aqui? A gente tá mudando agora, eu que peço desculpa pela confusão aí.

- Amor, trouxe as malas? - ela surgiu na porta e veio ao encontro dele enquanto os dois homens empurravam a caixa da geladeira para dentro.

Estavam casados há cinco anos. Moravam em um apartamento no centro, mas queriam um bairro mais seguro e tranquilo, além de estar mais perto do trabalho dela. Ele era webdesigner, ela arquiteta. Perguntaram sobre a rotina do prédio, tinham se apaixonado pelo apartamento quando visitaram uns meses antes. Pintaram duas paredes e trocaram a pia da cozinha antes da mudança. Estavam muito felizes de finalmente se instalar. Eu só queria entrar em casa.

- Bem-vindos - eu disse, enfim. - Se precisarem de alguma coisa, por favor, fiquem à vontade, é só bater.

***

Eu não costumava interagir muito com as pessoas naquele prédio. Por mais simpatia e amabilidade que eu julgasse despender toda vez que cruzava com alguém nas escadas, no elevador ou no hall, meus vizinhos simplesmente pareciam ser esse tipo de gente - pessoas cinzas, ranzinzas, que não gostam de outras pessoas e para quem coletividade é apenas uma palavra.

Um dos moradores, a quem a aposentadoria havia dado tempo para encontrar problemas, costumava brigar com a síndica toda vez que se encontravam. Os dois discutiam, ela ignorava as reclamações e, como forma de punição, ele cortava a luz - ora do apartamento dela, ora dos ambientes comuns, quando não dos dois. Em uma das tentativas mais ousadas de atingi-la, o mesmo morador ergueu um pequeno monte de terra na entrada do prédio, fincou sobre ele dois pedaços de madeira, rusticamente pregados em formato de cruz, e, apoiado no chão em frente à escultura, um pedaço de papelão exibia os dizeres "aqui jaz um prédio".

Depois de alguns anos presenciando situações dessa natureza, pouca coisa me surpreendia, mas, aos olhos de quem talvez não estivesse acostumado, tudo aquilo seria estranho. Por isso, tive um pouco pena do casal de desavisados, tão feliz com a mudança. Vocês não sabem onde vieram parar, senti vontade de dizer. Eu não esperava que pessoas normais, gente como eu, com quem eu poderia de fato dialogar, morassem naquele lugar.

***

Eu não esperava, acima de tudo, que não só dialogaria com essas pessoas como elas se tornariam minhas amigas. No início, eram encontros casuais quando estávamos chegando ou saindo. Falávamos de amenidades - lugares para conhecer no bairro, o que valia a pena comprar no mercadinho ao lado e o que era melhor deixar para o supermercado, os hábitos peculiares de alguns vizinhos. Aos poucos, essas conversas começaram a se estender, e nos víamos parados no corredor, entre as duas portas, terminando assuntos antes de entrar em casa. Foi questão de tempo até o primeiro "não quer entrar? A gente pode tomar uma cerveja e continuar conversando lá dentro". Eu comecei a frequentar o apartamento deles e eles o meu.

Ela trabalhava em um escritório de arquitetura que prestava consultoria em construções sustentáveis, viajava bastante a trabalho. Ele, no momento, não tinha emprego fixo; trabalhava de casa com diferentes clientes. Dava pra viver. Por enquanto isso bastava e não queria voltar para a rotina de um escritório. Com ela eu tinha em comum o feminismo. Discutíamos sobre o que líamos a respeito, o machismo dos colegas homens com quem trabalhávamos, diferentes situações por que já havíamos passado e o que fazer diante delas. Com ele, eram os vinis. Vinicius, Elis, Chico, Noel, Cartola. Ele me emprestou alguns dos discos dele, eu emprestei alguns dos meus para ele. A vida inteira eu quis ter vizinhos assim e agora eu tinha.

***

Foi ao som de Cartola - ainda é cedo amor - que um dia dividimos uma garrafa de vinho.

Era ele quem costumava fazer as compras, e por três vezes nos encontramos em frente ao elevador, carregados de sacolas na volta do supermercado. "A gente pode combinar de ir juntos na próxima", ele disse. E assim fizemos. Passamos a dividir o peso das sacolas e a comprar em conjunto produtos que valia a pena adquirir em quantidade para aproveitar promoções.

Em um fim de tarde de junho fomos mais uma vez juntos ao supermercado. A chuva cobriu a cidade enquanto percorríamos os corredores em busca de pão, carne, papel higiênico, arroz, produtos de limpeza. Quando a porta automática se abriu à nossa frente, a água que jorrava do céu, embora sem força, não dava sinais de que ofereceria uma trégua. Corremos, mas as poucas quadras que separavam o supermercado do prédio foram suficientes para que chegássemos encharcados, a água escorrendo de nossos cabelos. Essa noite pede um vinho, ele disse. Se ele quisesse, eu tinha um. Era só guardar as compras, trocar a roupa molhada e a gente poderia comer qualquer coisa enquanto bebia. Ele queria? Claro, por que não.

***

Se fosse possível explicar tudo o que acontece, nossa perspectiva e entendimento do mundo seriam outros. É como imaginar como seria a vida se os dias tivessem mais ou menos horas, se pudéssemos nos deslocar no tempo da mesma forma como nos deslocamos no espaço, se fôssemos capazes de recordar todas as memórias de uma existência - o mundo, da forma como o concebemos, não existiria.

Os meses que se seguiram àquela noite foram obscuros. Dias que vieram, um a um, que fizeram mudar a estação e a cara dos dias do lado de fora mas também o que pairava do lado de dentro, entre duas portas do terceiro andar. Não há como dizer que algo aconteceu, tampouco que não. Nunca tive coragem de dizer em voz alta; se mentalizar palavras bastasse para que viessem ao mundo e nele se concretizassem, ela estaria morta.  Contam as lendas que, uma vez proferidas, as palavras são imbuídas de um poder que antes não possuíam. Não ditas, planam no reino das coisas imaginadas, impossibilitadas de agir no mundo; enunciadas, ganham vida e podem enfim tocar a realidade.

Estou sentada em meu sofá, segurando uma taça de vinho e conversando com o silêncio que envolve a sala. Do outro lado do corredor, eles talvez estejam jantando. Uma noite igual a tantas outras do final do inverno, quando na rua o verde retoma seu espaço e o ar aos poucos começa a esquentar, prenunciando a primavera. Uma noite igual a tantas outras, a não ser, talvez, pelas palavras que nela chegaram ao mundo. Basta o impulso - inspirar e deixar que percorram o caminho em direção à vida: eu quero que ela morra.

13 de julho de 2016

ausências

Eu sempre chego antes e já estava no terceiro copo quando ele me cumprimentou e puxou a cadeira. Estávamos em junho, mas mesmo assim eu havia pegado uma mesa na área externa.

- Te importa se eu fumar de vez em quando? - pergunto meio sem jeito, porque imaginei que ele não soubesse.

- Não sabia que tu fumava - (o que foi que eu disse?) - Mas não, claro que não. Não me incomoda.

Ele sentou e fez sinal para o garçom, apontando para o meu copo.

***

Olhei no espelho e mais uma vez para o relógio. Faltavam dez minutos para o horário que marcamos, e eu levaria pelo menos meia hora para chegar, indo a pé. Deveria ser o suficiente, pensei enquanto apagava a luz e girava a chave na porta. Na rua, os postes acesos lembravam a quem ainda não houvesse percebido que já era noite. Poucos meses para frente ou para trás ainda seria possível ver o sol, mas era junho e era noite.

Reconheço alguns dos garçons no bar. Eu já não sabia dizer quando havia estado ali pela última vez. Talvez três anos, talvez quatro. Peço uma cerveja. Os três homens na mesa do outro lado, na faixa dos cinquenta anos, olham para mim. Acendo um cigarro e pego meu celular na bolsa. O importante é que o desconforto não seja aparente. Mesmo que eu tivesse vindo até aqui para beber sozinha - eles não têm nada com isso.

Fazia tempo que não nos falávamos. Principalmente, fazia tempo que não nos falávamos a sós - se é que alguma vez já o havíamos feito. Trabalhamos juntos por dois anos, e durante esse período frequentamos a vida um do outro. Trocamos figurinhas sobre livros e entrevistas. Saímos para beber algumas vezes. Escrevemos uns contos que alguém quis premiar. Mas esse tempo já havia passado há muito, e desde então era difícil dizer. Éramos amigos?

Olho para o relógio mais uma vez. Por que infernos eu invariavelmente acabo na mesma situação? Sozinha, esperando pelos outros.

***

- Tu tá aqui há muito tempo já? Desculpa se eu demorei - diz enquanto se ajeita na cadeira de plástico, tirando o celular do bolso de trás para colocá-lo em cima da mesa.

- Não, cheguei faz pouco - eu largo meu copo. - Que bom te ver, fazia tempo, né? Como é a vida no sudeste?

- Não muito diferente. Melhor, porque tem mais opções de tudo. É mais fácil se distrair e fazer coisas diferentes, ir pra lugares diferentes. Porque né, eles existem. Não é que nem aqui, que tudo se esgota rápido. Mas a essência é a mesma, sabe? A gente leva as coisas junto, não tem como.

- Imagino. Mas eu ainda tenho essa ideia. De que se eu sair daqui as coisas vão ser diferentes. Quero dizer, elas têm que ser. Sabe? É inaceitável que não sejam.

O tempo todo com ele eu tenho certeza de que me acha inocente, como se eu não soubesse o suficiente. Como se não tivesse vivido o suficiente para saber. Não por uma questão de idade, porque nascemos no mesmo ano, com poucos meses entre um parto e outro. Mas ele era uma dessas pessoas - que faziam com que eu me sentisse validada ao concordar com qualquer coisa que eu dissesse.

Ele pergunta sobre o meu trabalho e eu não sei bem o que responder. Suspiro. Olho pra ele em silêncio, meio sorrindo, e levanto os ombros. Meu trabalho bate com o que eu me formei para fazer, nem menos nem mais.

- Não é isso que me incomoda. Nem o que eu faço nem o que eu ganho pra fazer o que eu faço - paro por um instante, tomo um gole da cerveja. - Falta tesão, só isso.

Ele ri. E porque ria pouco era uma risada gostosa de ouvir. Eu nunca sabia ao certo se havia algo errado ou se era só a seriedade de costume. Porque ele não costumava se deixar abalar pelas coisas - salvo mudanças sutis, a expressão mantinha-se a mesma. Por isso, quando ele ria, eu não conseguia evitar e sorrir de volta.

- Acho que tu tá procurando tesão no lugar errado, hein.

- Vou fazer o quê, se as outras fontes são ainda mais escassas.

Resolvemos pedir comida - quibes - e mais cerveja.

- Relaxa, cara. O problema não é teu trabalho. O problema é o que tu faz - ou não faz - quando não tá trabalhando. É o que eu acho, pelo menos. Se tu deixa isso te consumir a ponto de viver pra isso mesmo quando tá fora do escritório ou se tu termina o expediente e vai viver a tua vida e fazer as tuas coisas. Não é?

- É, eu sei.

***

- Vou chamar esse aqui - minha editora anunciou e passou um currículo por cima da divisória da nossa ilha.

Li o nome no início da página. Eu já sabia quem ele era, embora nunca tivesse conhecido pessoalmente. Naquela época, ele voltava de uma temporada trabalhando em um jornal de Buenos Aires, e uma festa de boas vindas estava marcada para a sexta daquela semana.

Procurei algumas das matérias assinadas por ele no site do jornal. Ele escrevia com convicção, pontuando o texto com referências literárias, usando uma linguagem ao mesmo tempo direta e envolvente. A habilidade com as palavras, eu saberia - ou talvez já soubesse -, era a mesma com as pessoas. Na tarde de sexta-feira, saí com minha colega da redação e fomos direto ao bar.

- Vamos chegar antes de todo mundo, mas podemos comer enquanto esperamos. Né? - ela olhou pra mim e sorriu. - Melhor que beber de estômago vazio.

Poucas horas depois, umas trinta pessoas já ocupavam o lugar - sentadas conversando, na rua fumando, andando de um lado para o outro com copos de cerveja nas mãos -, e a dupla de mesas que escolhemos quando chegamos já havia se transformado em um U que ocupava metade do bar. De repente, gritos acalorados vindos da rua indicaram que ele havia chegado. Eu ainda estava preocupada por estar em uma festa de boas vindas de alguém que eu não conhecia. Embora quase todas as pessoas ali fossem amigos em comum, não era o tipo de situação em que eu me sentia confortável.

- Prazer - eu disse quando uma amiga nos apresentou - e desculpa invadir tua festa.

- Imagina! - ele me cumprimentou com beijos, direita e depois esquerda, e um rápido abraço. - Prazer te conhecer também, já fiquei sabendo que vamos trabalhar juntos.

***

Conversamos pouco aquela noite - o suficiente para perceber o que tínhamos em comum. Cinco anos depois, muito havia mudado. Os empregos que nos pagavam, as cidades onde morávamos, o tipo de vida que cada um levava. Mais velhos, mais sérios, unidos por um laço que agora residia e resistia no passado.

- Cara, eu sinto saudade daqui. É o melhor lugar pra beber nessa cidade - ele disse.

- Bah, eu também. Mas nunca mais voltei, até hoje, praticamente só vinha aqui com vocês.

- Mas o pessoal ainda vem, não? Marcam uns aniversários aqui.

- É, mas não eu.

Eu falei e me arrependi na mesma hora. Não que ele não soubesse, mas em voz alta aquilo se tornava palpável. Permanecemos um tempo em silêncio, bebericando nossas cervejas.

- Mas tu acha que é a mesma coisa? - pergunto. - Quero dizer, naquele tempo era diferente. Tava todo mundo aqui ainda, era outra vibe.

- Sim - ele pausa. - Mas a gente tá aqui, não?

Sorrimos. Brindamos. Ele tinha um sorriso malandro, apaixonante. E ao olhar para ele naquele momento me perguntei como era possível que eu nunca houvesse me apaixonado. Não seria difícil - ao contrário, seria muito fácil. Nós gostávamos da companhia um do outro, a conversa corria naturalmente, era confortável estar na presença dele. Do que mais precisaríamos? Sim, seria muito fácil. Mas as coisas acontecem ou não acontecem, simplesmente.

Passava das duas horas quando o garçom anunciou que iriam fechar o bar e perguntou se queríamos uma última cerveja. Nós queríamos.

- É bom demais estar aqui contigo. A gente precisa se ver mais, cara.

Por algum motivo, eu sabia que ele estava sendo sincero. Não era o tipo de coisa que ele diria por educação, "sim, temos que combinar alguma coisa, me liga", "claro, vamos nos ver, sim". Nenhum de nós fazia esse tipo. Terminamos a última cerveja e estávamos alegres e um tanto cambaleantes quando chegamos à calçada. Caminhamos até a minha casa. Nenhum carro passou por nós e não vimos ninguém na rua em todo o trajeto. A cidade estava vazia.

- Essa cidade é um cenário - eu digo.

Ele olha pra mim, coloca o braço sobre meus ombros, aproximando nossos corpos. Andávamos em uma estranha sincronia de passos tortos.

- E nós somos personagens.

***

Depois que ele pega o táxi, acendo um cigarro e sento na sacada. Com os pés apoiados na mureta, olho para um céu sem estrelas. Eu ainda tinha meio ano pela frente, antes de outro e, depois dele, o próximo, em uma sucessão finita cujo fim eu desconhecia. Há pessoas que entram nas nossas vidas para marcá-las profundamente, e eu sentiria falta dele. A luz do poste se esconde em meio aos galhos de uma árvore. O tom negro do céu, que parecia engolir a cidade inteira, logo se descortinaria em um novo dia. O frio e o escuro são apenas ausências.

11 de julho de 2016

as testemunhas

A ideia de que a sucessão de escolhas que fazemos ao longo da vida, das mais simplórias às mais grandiosas, aconteceu apenas para nos levar a um ponto - a partir do qual tudo muda. Não somos mais os mesmos e jamais voltaremos a ser quem éramos no instante anterior. Um momento exato no tempo que divide a vida em dois. Existe tudo o que nos levou até ali e tudo o que nos tornamos depois.

É preciso tempo para reconhecer essas histórias e, mais ainda, para encontrar o segundo que estabeleceu o antes e o depois. Existem memórias, e eu gostaria de contá-las a mim mesma. Num relato preciso como o dia em que tudo mudou. Essas memórias vêm e vão e, como a própria vida, voltam sempre. São fantasmas que rondam, esperando por um momento - um instante no tempo que muda tudo.

No ir dos anos, que memórias teremos do tempo que hoje já não é uma lembrança completa? E, quando chegarmos lá, o que teremos para contar sobre o percurso? A voz que escuto todas as noites. A vida, até então vivida sempre de maneira provisória, torna-se a própria vida.

***

A paisagem corria pela janela. Os morros contornados pela estrada aqui e ali davam lugar a paradas de ônibus, postes, estradinhas que serpenteavam verde adentro, rumo a vilas cujos nomes eu desconhecia. Do outro lado, ao longe, quando as árvores esparsavam, via-se o reflexo da lua sobre o mar - não fosse por isso, não seria possível distinguir céu e água. Na poltrona ao meu lado, ele dormia, cansado que estava de um voo curto transformado em seis horas de espera no estado vizinho por conta do nevoeiro. Estávamos atrasados. E embora meu corpo pedisse eu não conseguia dormir. Olhava incansável pelas janelas dos dois lados, tentando reconhecer qualquer coisa em meio à noite. Uma semana depois, o mesmo trajeto, percorrido de dia, mostraria a exuberância do que meus olhos sabiam que estava logo ao lado, mas não eram capazes de ver.

Separamo-nos logo na chegada. Tracei o caminho da rodoviária ao hotel, peguei minha sacola no bagageiro e fui, despedindo-me com um nos vemos amanhã e um beijo na bochecha. Não havia por que continuar com ele, ou estar nos mesmos lugares, quando há tanto tempo percorríamos caminhos diferentes. Ele morava em outra cidade e tinha a própria editora, enquanto eu passara os últimos dois anos mentindo a mim mesma sobre tudo. Mal nos falávamos, àquela altura. A única coisa que nos unia, ao fim e ao cabo, era a vontade de estar ali.

Depois de largar minhas coisas no quarto, lavar o rosto e trocar de roupa, corri para o centro. Fazia mais frio do que eu esperava, mas a temperatura não era algo em que eu prestaria atenção. A vida vibrava em todos os cantos e as pessoas enchiam as ruas. Nos trechos mais apinhados, era difícil avançar, e tanto os corpos quanto as vozes chocavam-se a todo momento. Decidi não acompanhar a sessão daquela noite. Comprei uma cerveja e procurei por um lugar onde pudesse sentar sozinha - não longe demais a ponto de estar isolada, mas o suficiente para que ninguém se sentisse à vontade para dividir o espaço comigo. Quando encontrei um banco vazio, uma quadra depois da praça, tirei o caderno e a caneta da mochila. Eu não queria interagir, apenas assistir.

Na manhã seguinte, enfim, pude ver onde estava. A praia, o rio, os barcos, o cais, os morros, as pedras, a igreja. Mandei uma mensagem - "Nos vemos hoje antes da sessão?" -, guardei o celular e comecei a caminhar. Era só o que eu faria naquela manhã. Caminhar. Sem mapa e sem nenhum destino em mente a não ser qualquer lugar. Eram quase três horas quando comprei um sanduíche e uma coca e sentei pra comer embaixo de uma árvore. Poucos metros à minha frente, a água azul da baía e as praias e morros do outro lado. Depois de comer, olho o celular: nenhuma resposta dele; dezenas de mensagens e notificações me lembrando da vida para a qual eu deveria voltar. Ao mesmo tempo em que pego um livro, ponho o celular de volta na mochila, com vontade de atirá-lo na água. Como se, uma vez livre das notificações, vibrações e luzinhas piscantes, eu pudesse estar livre também de tudo o que representam. Seria difícil voltar dessa vez.

As portas enfim abrem e as pessoas começam a entrar, uma a uma. Não o vi na fila, tampouco lá dentro. Sempre foi assim, sempre haveria de ser. Se perguntassem, eu não saberia dizer ao certo do que consistia nossa amizade. De reconhecimento mútuo e silencioso. De interesses comuns mas pouco compartilhados. De uma maneira ou de outra, porém, era reconfortante saber que estávamos juntos, mesmo não estando.

O silêncio reina no momento em que o mestre de cerimônia aparece para anunciá-lo. Abro o caderno pra fazer anotações enquanto ele fala, mas escrevo pouco - um lugar fora de tudo, onde você é só você, você deve se sentir livre para dizer coisas estúpidas, há coisas não ditas, e quando você diz se torna real. Durante quase todo o tempo, apenas ouço e observo os trejeitos. O modo como ele fala e a linguagem corporal. Estamos perto demais. Não escrevo nenhuma pergunta, pois quero fazer a minha pessoalmente.

O mundo para nos segundos que ele permanece olhando para mim. Sem dúvida o olhar mais forte a encontrar o meu, de um azul penetrante que pareceu adentrar minha alma e enxergar tudo - todos os meus segredos, todas as minhas falhas, fraquezas e vergonhas. Ele parou e titubeou ao responder. "É uma escolha difícil." Foi rápido. Durou tanto quanto podem durar poucos segundos - uma eternidade comprimida. E no minuto seguinte era como se o anterior houvesse desvanecido. Não é isso a passagem do tempo? Minuto a minuto, dissolvendo o que veio antes em memórias que o tempo há de distorcer ou apagar.

Naquela noite, entre uma cerveja e outra, encontrei-o novamente. Estava sentado nas escadas em frente à igreja e gritou meu nome quando passei. Olhei em volta meio perdida, achando que pudessem estar chamando outra pessoa com o mesmo nome, até que o vi. Estava levemente embriagado, mas mantinha a mesma postura séria, ombros firmes, costas eretas, o olhar de quem não se surpreende ou encanta com qualquer coisa. Sentei ao lado dele, brindamos em silêncio e em silêncio ouvimos todo o burburinho ao nosso redor. As pessoas passavam, algumas cambaleando, todas gritando frases para nós desconexas. Falamos sobre o lugar, sobre o dia que acabara de passar e sobre os que ainda tínhamos pela frente. "É bom estar aqui", eu disse. "Aqui aqui ou aqui?" Eu ri. "Os dois."

***

A fragilidade dos elos que nos conectam ao passado é a mesma dos que nos ligam ao futuro; eles existem baseados em algo que não é palpável. Como o presente, que num instante é futuro e no outro passado, pendemos entre possibilidades. Os lugares por onde passamos ficam para trás e as memórias são engolidas pelo tempo. Nossos rastros, em pouco, não serão mais notados por quem ainda vive. Nossa presença se esvai, dia após dia, a cada hora, e o esforço para evitar esse processo resulta quase sempre vão.

Dois dias depois, pegamos ônibus diferentes. Mais uma vez, eu olhava pela janela, me deixando maravilhar pelas praias e encostas e imaginando se ele estaria dormindo. À medida que o tempo passava, e a origem se tornava mais distante que o destino, eu via a paisagem mudar do lado de fora. A vegetação cedia espaço a construções de aspecto desagradável e o azul do céu gradativamente perdia a força, encoberto pela camada de poluição.

Tudo ficara para trás. A atmosfera daqueles dias, em um lugar onde respirávamos outro ar e falávamos outra língua, foi ofuscada por uma menos atraente e mais conhecida, da vida cotidiana. O dia após dia que tanto me assombra. Por três dias, fomos testemunhas de um outro lugar. E a praia, o rio, os barcos, o cais, os morros, as pedras estão lá e guardam nossos passos, pedaços do que já é nosso passado. Um desvio de rumo e um intervalo no tempo. Voltamos a nossos caminhos, distantes e diferentes, quase indiferentes, mas antes que o tempo nos faça desaparecer haveremos de retornar. E vasculhar as ruínas do que deixamos para trás.

Na sacada de casa, sei que não é para este ponto que gostaria de voltar. Chove, e felizmente ainda tenho tempo ao meu dispor. Uma constante domina meus pensamentos. Nenhuma outra voz será capaz de contar histórias que são minhas. No fim, somos as únicas testemunhas de nossas vidas.