28 de julho de 2014

dançando na beira do abismo

E dançam. Quem conta a história é outra pessoa e a história pode ser a história da música ou pode ser outra coisa. Num fôlego só, você vai lá e e escreve. Quero ser John Malkovich. Tantas madrugadas e nunca nos conhecemos de verdade. Ou talvez tenhamos nos conhecido melhor do que todos os bons amigos - ninguém jamais saberá. 

O tempo passa como o inexplicável que é. O vício da ordem cronológica que não é menos absurda que seu inverso; cada passo carrega em si o caminho de volta. Acordar para dar prosseguimento a um espaço de tempo finito entre outros espaços de tempo finitos em um espaço de tempo inconcebível. O descer de três lances de escada seguido pelo deschavear de duas portas e uma hora de caminhada que no fim serão cinco por cento de toda a sua vida.

É fácil querer ser outro. Olhar-se no espelho e enxergar num espectro para além da imagem refletida as possibilidades e o que poderia ser. Não é dado a ninguém a percepção de uma vida inteira no espaço de um momento, mas um momento pode ser o bastante para perceber o que não é. Todas as falhas de um homem. Falhei em ser o que acreditava ser destinado a ser, falhei em ser o que acabei sendo, falhei mesmo em ser o que sou.

Meu avô costumava dizer que, na hora em que pensamos em ir, na verdade já fomos. E o que você pode dizer, afinal, quando se dá conta de tudo? O que você pode dizer quando percebe as falhas? Como você pode gritar e escapar de uma mediocridade viciosa quando as falhas falam mais alto?

Para quem está atrasado, é sempre tarde demais. Encerrado em um corpo torpe enquanto o apito da chaleira soa eternamente e todos os sons do mundo se unem em um só. Na corrente do não ser, esvaem-se números e feitos. Seremos lembrados por quem quando não houver mais quem possa lembrar?

Vejo o silêncio e ouço imagens quando fecho os olhos. Esse espaço que não chega a comportar uma vida, mas que grande demais para ser só um momento. Você concorda, você aceita e deixa seguir em frente, depois a gente vê o que faz, e antes que possa perceber não há o que ver ou o que deixar seguir em frente. E a vida até então vivida, sempre de maneira provisória, torna-se a própria vida.

Meu mundo por uma palavra tua, neste que é apenas um momento. Quando dançamos na beira do abismo. O único cenário possível para toda uma existência. O braço que envolve suas costas numa caminhada de quarenta e cinco passos até a esquina e o adeus sem jeito ao vencer a rua: a tragicidade e a beleza de uma pitada de afeto diante do peso enorme da vida.